—Aonde é que vae, então? indaga ella, com simpatia.

—Eu lhe digo, Maria Alexandrovna, enceta o Mozgliakov atrapalhado, aconteceu-me um caso um tanto esquisito... Nem sei até como lh'o diga... Mas, pelo amor de Deus, dê-me um conselho.

—Que é, diga lá?

—Meu padrinho, o Borodoniev... conhece, aquelle commerciante... encontrei-o hoje... está irritadissimo, dirigiu-me exprobações, diz que sou um soberbo. Com esta é a terceira vez que venho a Mordassov sem ir para sua casa. "Vem hoje, me disse elle, tomar uma chavena de chá commigo". São quatro horas em ponto, e elle toma o chá, á antiga, ahi pelas cinco horas, depois da sésta. Que quer que lhe eu faça... Eu avalio, Maria Alexandrovna... Mas colloque-se no meu logar! Foi elle que teve mão em meu pae que se queria enforcar, quando perdeu aquelle dinheiro do Estado!... Foi n'essa occasião, por signal, que elle insistiu em ser meu padrinho. Se fôr a effeito o meu casamento com Zina Aphanassievna, bem sabe que disponho apenas de cento e cincoenta almas, ao passo que elle é millionario, e mais que isso, até, segundo affirmam. Não tem filhos. Se eu estiver a bem com elle, pode deixar-me cem mil rublos. Ora elle está com setenta annos, lembre-se d'isto!

—Ah! meu Deus! Mas então que é que o prende? Por que está para ahi a marralhar? exclama Maria Alexandrovna,{84} disfarçando a custo o contentamento. Vá-se embora, vá! Com essas coisas não se brinca! E era por isso então que estava tão absorto durante o jantar? Vá, meu amigo, não se demore! Mas devia de ter ido vêl-o esta manhã para lhe provar que aprecia a sua benevolencia. Ai! esta mocidade!

—Mas, se Maria Alexandrovna tem sido a propria a arguir-me de semelhantes relações! Tudo era dizer-me que era um mujik, parente de taberneiros e agentes de negocio!

—Ah! meu amigo, quanta coisa se diz sem pensar! Tambem sou sujeita a enganar-me.—Não me tenho na conta de infallivel. E d'ahi... não me recordo... mas... é possivel que eu me achasse numa tal disposição de espirito... em summa, o senhor não tinha ainda formulado o seu pedido. Certamente, que houve da minha parte egoismo maternal, mas agora devo encarar as coisas de um ponto de vista novo. Qual seria a mãe que m'o levasse a mal? Vá e não perca um instante. Passe a noite com elle... e oiça lá! Fale-lhe a meu respeito, diga-lhe que o tenho em muita conta, que sou muito sua amiga... Proceda com habilidade. Ah! meu Deus! Tinha-se-me varrido de todo. E era eu que lh'o devia ter lembrado.

—Resuscitou-me, Maria Alexandrovna! exclama Mozgliakov encantado. E agora obedecer-lhe-hei em tudo e por tudo. E eu sem me atrever a falar-lhe n'isso! Pois bem, adeus! vou-me embora. Desculpe-me para com a Zinaida Aphanassievna. E d'ahi, hei de voltar.

—Receba a minha benção, meu amigo. E não se esqueça de falar a meu respeito. Effectivamente, é um velho estimabilissimo.{85} Ha muito tempo que mudei de opinião a seu respeito. E demais, eu sempre o estimei na qualidade de Russo dos bons tempos, tão despido de artificios. Até mais ver, meu amigo, até mais ver!

"Foi uma fortuna carregar com elle o demonio! Que estou dizendo, foi o proprio Deus que veiu em meu auxilio."