—E que hei de eu cantar, mamã?

—Ah, Zina! Canta-me aquella romança, não te lembras? Aquella que tem um accento tão cavalheiresco: a castellã{92} e o seu trovador—Ah principe, sou doida pelos assuntos cavalheirescos! Os castéllos! aquelle viver mediéval! Trovadores, arautos! Festas e torneios!... Vou te fazer o acompanhamento, Zina... Sente-se aqui, mais perto, principe! Ai! os castéllos, os castéllos!

—Está c... laro! os castéllos... tambem gosto de cas... tellos, repete o principe assestando na Zina o olho solitario: Mas... santo Deus! que romança!... Estou a conhecêl-a... Ha que tempos... que tempos que a ouvi... recorda-me... ah! meu Deus!...

Não me incumbo de dizer o que foi que succedeu ao principe, quando a Zina entrou a cantar. Cantava uma romança francêsa, muito antiga e que estivera em moda, nos seus tempos. A Zina cantou a primor. A voz pura de contralto ia direita ao coração. O lindo rosto, os magnificos olhos, os dedos fusiformes a voltarem as folhas, os bastos e negros cabellos, tão lustrósos, o seio afflante, a sua pessoa féra e linda, toda ella, concorria tudo a enfeitiçar o pobre do gêbo. Não despegou os olhos de cima d'ella emquanto ella esteve a cantar. Suffocava de commovido. Aquelle senil coração, esquentado pelo champanhe, pela musica e pelas reminiscencias, palpitava cada vez com mais força, e como não havia palpitado ha tanto tempo! Estava a ponto de chorar quando ella acabou.

—Oh! minha linda menina! exclamava, a beijar-lhe os dedos, estou encantado!—E só agora é que me lembro... mas... mas... Oh! minha linda menina!...

O principe nem foi senhor de concluir.

Maria Alexandrovna sentiu haver chegado o momento psicologico.{93}

—Para que anda a dar cabo de si, principe?—encetou com solemnidade. Quantos sentimentos, quantas forças vitaes, quanta riqueza moral lhe não resta ainda? E com tudo isso, foi emparedar-se por toda a vida num carcere! Fugir do mundo! Das amizades! É imperdoavel! Pense bem, principe! Encare a vida, como se dissessemos, com uns olhos limpidos! Lembre-se do passado, da sua aurea juventude, dos seus dias sem cuidados. Resuscite esse passado, resuscite-se a si proprio! Volte a viver entre a sociedade dos vivos: vá até ao estrangeiro... á Italia, á Hespanha, principe, á Hespanha. Precisava de um guia, de um coração que lhe tivesse amor, que o estimasse e que lhe fosse simpathico.

Pois bem! O principe tem amigos, appelle para elles e virão em monte. Cá estou eu que seria a primeira a dar de mão a tudo, e a deitar a correr para acudir ao seu chamado! Não me esqueço da nossa antiga amizade, principe! Deixaria, até, meu marido, se estivesse mais nova, e fosse tão formosa como minha filha, fazia-me sua companheira, sua amiga, sua mulher, até, se o desejasse.

—Estou certo de que, nos seus tempos, deve de ter sido uma mulher encantadora, disse o principe a assoar-se.