Tinha os olhos arrazados de lagrimas.
—A nós proprios sobrevivemos nos nossos filhos, principe, responde effusiva Maria Alexandrovna. Tambem eu tenho o meu anjo da guarda, a amiga dos meus pensamentos, do meu coração, principe! Rejeitou até agora sete pedidos de casamento, por se não querer apartar de mim.
—E por conseguinte, vae comsigo quando me ac... com... ompanhar ao estrangeiro? Sendo assim, irei para o estrangeiro... {94} está resolvido... exclama o animadissimo principe.—Absolutamente!... E se eu pudesse lison... jear-me com a es... pe... rança... Mas é uma menina po... rtentosa, portentosa! Ah! minha linda menina!
E o principe volta outra vez a beijar os dedos á Zina. Tentou até ajoelhar-lhe aos pés, o pobre do homem.
—Então!... então, principe, ia dizendo que se pudesse lisonjeál-o a esperança?... agarrou no ar Maria Alexandrovna, sentindo brotar-lhe novo accesso de eloquencia. Que homem tão singular é o principe!... Não se considera então digno da attenção das mulheres! A formosura não consiste apenas na mocidade! Lembre-se de que é uma reliquia da aristocracia russa! É o representante dos mais refinados, dos mais cavalheirescos sentimentos, e das mais requintadas maneiras! E a Maria não amou o Mazeppa[[10]] porventura? Li algures que Lauzun, um marquêz seductor da côrte de Luis... não sei quantos... já velho, conquistou uma das mais supinas beldades do seu tempo!... E demais, quem foi que lhe metteu em cabeça que já era velho? Quem se atreveu a afirmál-o? Homens como o senhor envelhecerão jámais, porventura? O principe, tão opulentamente dotado de sentimento, de alegria, de espirito, de força vital, de tão delicadas maneiras! Fosse o principe para ahi a qualquer estação balnear com uma mulher joven, com uma beldade como a Zina, para não irmos mais longe,—e eu lhe diria que effeito colossal não havia de produzir, o senhor, reliquia da nossa aristocracia;{95} ella, uma belleza de rainha! Ella, com aquelle seu pisar majestatico, de braço dado com o principe, a cantar n'uma sociedade aristocratica; o principe, pela sua parte, a fuzilar ditos de espirito! Era caso para acudirem os banhistas em pêso a fazer-lhe côrte! Dava brado por toda essa Europa! Pois teria a seu favor os jornaes, todos elles folhetins, e surgia um grito unanime: "Principe! Principe!"
E o senhor a dizer: "Pudesse eu lisonjear-me com a esperança?"
—Os jornaes... está claro, está claro!... Os folhetins... balbucia o principe, que não percebeu nem metade do aranzel de Maria Alexandrovna e cada vez está mais lamecha... Mas... minha rica menina... se se não sen... te fa... tigada, repita outra vez aquella romança que cantou inda'gora...
—Ah! principe, ella sabe outras ainda mais bonitas! Conhece a Andorinha? Já a ouviu?
—Está claro... mas já não me lembra...
Não... não!... aquella que cantava ha pouco: não quero a Andorinha! Quero aquella tal romança: disse o principe a pedinchar como um pequerrucho.