—Ah! meu Deus! Que bondade a sua, Maria Alexandrovna!... Mas... não seria possivel procedermos a isso desde já?
—Deus nos defenda! Sempre é muito estouvado, meu amigo! Ella, então, que é tão soberba! Ia tomar isso como uma nova insolencia, um ultraje, até! Eu arranjarei tudo, e não ha de passar d'amanhã; agora, comtudo, vá se embora, vá até casa do tal negociante, ou para onde lhe apetecer... Ou, se, antes quer, volte esta noite, mas não serei eu que lh'o aconselhe.
—Vou m'embora! vou m'embora!
Meu Deus! Resuscitou-me! Mas uma pergunta, ainda: e se o principe não morre tão cedo?
—Valha-nos Deus! Sempre é muito ingenuo, meu caro Pavel! O senhor o que deve é rogar a Deus que conserve os dias d'aquelle vélhito, todo elle bondade, carinho, cavalheirismo! Devemos desejar-lhe longa vida, de todo o coração! E eu serei a primeira; noite e dia, com lagrimas, a rezar pela ventura de minha filha! Mas, ai de mim! A saude do principe, coitado, quer me parecer que está muito abalada! E demais, elle não deixará de fazer a sua{115} visita á capital, de levar a Zina aos bailes, e receio muito, muito, acredite, que isso concorra a dar cabo d'elle! Orêmos, porém, meu caro Pavel, e quanto ao mais, entreguêmo-nos nas mãos de Deus! Espére, arme-se de paciencia, seja viril, e viril, acima de tudo! Nunca puz em duvida a nobreza dos seus sentimentos... Aperta-lhe com força as mãos, e o Mozgliakov sáe do aposento em bicos de pés.
—Até que em fim! Vi-me livre de um imbecil! diz com ares de triumpho. E agora vamos aos outros... Abre-se a porta e entra por ali dentro a Zina. Vem mais pallida do usual; fulgem-lhe os olhos com febril clarão.
—Mamã, veja se acaba com isto, que eu estou, que já nem posso mais; é tão nojento tudo isto que me vem tentações de fugir por ahi fora. Não me faça padecer por muito mais tempo, não me irrite! Este lodaçal causa-me engulho, entendeu?
—Zina, que tens tu, meu anjo?... Estiveste escutando á porta! exclama Maria Alexandrovna olhando de fito para a filha.
—Escutei, é verdade.—Veja se m'o quer lançar em rosto, como o fez aquelle imbecil? Juro-lhe que se porfiar em obrigar-me a representar semelhante papel em tão vergonhosa comedia, renuncío a tudo, e acabo com tudo, com uma só palavra. Não ha duvida que me resolvi a prestar-me á principal vilania, mas foi por me não conhecer a mim mesma; atabáfo com semelhante vergonha!
E sae atirando com a porta.