—Quê—quê—quê?—A raciocinar, por mais que me digam! Ora o mujik, o ranhoso! Tenho pêna de me faltar tempo para te ensaboar esse bestunto, quando não... Mas não as perdes, deixa estar!... Grichka, dá-lhe o chapéu e a chuba[[13]]. Assim que eu saír, arruma estes três quartos e o quarto aberto. Vá, pega n'essa vassoira! tira as capas aos espelhos, aos relogios e quero tudo prompto em menos de{125} uma hora! E tu, tambem, veste a casaca, e dá luvas aos criados! Ouviste, Grichka? Ouviste?
Sobem para a carruagem. Aphanassi Matveich está com uma cara espantada. Maria Alexandrovna dá voltas ao miolo para lhe encasquetar na cabeça e na memoria as recommendações mais essenciaes, elle, porém, interrompe-lhe as suas cogitações.
—Maria Alexandrovna, eu esta noite tive um sonho tão exquisito, diz, após breve silencio.
—Ápre! Manequim de uma figa! E eu que estava a pensar!... Como te atreves tu a vir-me para cá com esses teus sonhos de mujik? Escuta, e olha que t'o digo pela ultima vez, se te atreveres, hoje, a fazer a minima allusão aos taes sonhos ou ao quer que seja,... toma sentido... nem sei o que ha de ser de ti! Escuta bem: o principe K... está hospedado em nossa casa. Lembras-te do principe K...
—Se lembro! minha mãezinha, lembro-me muito bem! E por que é que elle nos dispensou tamanha honra?
—Cala-te, não é da tua conta! Tu, com a maxima amabilidade, e como dono de casa, vaes convidál-o a vir comnosco para o campo. Partimos ainda hoje. Mas se lhe disseres uma palavra só que seja, em toda a noite, ou amanhã... ou no outro dia... ou em toda a roda do anno, mando-te guardar gansos! Nem palavra! São essas as tuas funcções—e mais nada! Intendeste?
—Mas se me fizerem perguntas?
—Não importa! Cálas-te.
—Pois sim, mas uma pessoa nem sempre pode ficar calado, Maria Alexandrovna!{126}
—Responde com monosylabos, um hum!... ou coisa que o valha, para que fiquem na persuasão de que és homem espirituoso e que reflectes antes de responder.