—Está... c... claro... por que é que eu me... n... não hei-de casar? acóde o principe, atrapalhado.
—Tiozinho! exclama o Mozgliakov.
—Está... c... claro, meu amigo, já te percebi. O que eu queria dizer-lhes, minhas senhoras, é que me não posso casar. Concluida esta deliciosa soirée, em casa da nossa amabilissima hospeda, amanhã tenciono ir até a charnéca, e d'ali, para o es-trangeiro, quero ir estudar a ins-tru-cção euro-ro-pêa.
A Zina está enfiada e vibra á mãe uns olhos rancorosos. Maria Alexandrovna, comtudo, assentou n'uma resolução. Até agora, estava á espera, a apalpar o terreno, supposto lhe parecesse achar-se sufficientemente compromettido o negocio e haverem-se-lhe antecipado seus inimigos. Percebe tudo, finalmente, e, de um golpe, quer acabar com aquella hydra das cem cabeças. Ergue-se, majestatica, acerca-se da mêsa a passo firme e com soberbo olhar enterra pelo chão abaixo aquelles pygmeus que a rodeiam. Reluz-lhe nos olhos o fogo da inspiração. Vae aniquilar aquella sucia de coscovilheiras peçonhentas, esmagar aquelle sevandija do Mozgliakov como quem esmága uma barata, e com um golpe decisivo, reconquistar de todo a influencia que perdeu sobre a pessoa d'aquelle idiota d'aquelle principe. Claro está que para isso ha mister de appellar{160} para um atrevimento extraordinario, mas não será isso que escasseie a Maria Alexandrovna.
—Minhas senhoras, enceta com modo solemne (Maria Alexandrovna nutre paixão pela solemnidade), minhas senhoras, tenho estado a ouvir calada as suas gracinhas e acho que já vae sendo tempo de que eu, pela minha vez, lhes dirija algumas. Bem sabem que nos achamos aqui juntas, unicamente por mero acaso. Estimo isso muito... Nunca me haveria resolvido a tornar publico um tão importante negocio de familia antes de o exigirem os dictames do mais estricto decoro. E acima de tudo, pedirei perdão ao nosso distinctissimo hospede. Mas quer me parecer que é elle o proprio quem, mediante remotissimas allusões a semelhante circunstancia, me suggere o pensamento de que a formal declaração d'este segredo lhe será grata, mas que ella lhe inspira apprehensões. Não é verdade, meu principe, que me não enganei?
—Está claro... não se enganou... e estimo muito... muito... diz o principe sem perceber palavra d'aquillo de que se está tratando.
Maria Alexandrovna, no intuito de melhor dispôr o seu lance, toma o folego e põe-se a examinar todo o auditorio, todos á uma a escutál-a com ávida e inquieta curiosidade. O Mozgliakov, todo elle a tremer, a Zina, muito afogueada, levanta-se... Aphanassi Matveich, n'estes assados, assôa-se.
—Sim, minhas senhoras, folgo immenso de as tornar participes d'este segredo familial. Hoje, depois de jantar, o principe, seduzido pela formosura de... pelas qualidades de minha filha... conferiu-lhe a honra de lhe pedir a mão. Principe, conclue ella com um tremor na voz, querido{161} principe, não me deve querer mal por esta minha indiscreção. O auge do contentamento, eis o que conseguiu arrancar-me do coração, um tanto prematuramente, este segredo estremecido, e... qual será a mãe que m'o leve a mal? Nem encontro sequer palavras que descrever possam o effeito produzido pela inspirada saída de Maria Alexandrovna. Ficaram todos varados de espanto. As visitantes, que suppunham assustar Maria Alexandrovna, deixando-lhe antever o estarem senhoras do seu segredo, matál-a com a divulgação do segredo, esfacelál-a com o poder unico das allusões, ficam estupefactas perante uma tão denodada franqueza. Uma tal valentia era um signal certo de bom exito.
—Por conseguinte, é por sua propria vontade que o principe vae casar com minha filha Zina. Ninguem o enganou, ninguem o embriagou... E por tanto, não foi com esconderijos, á laia de ladrão, que o obrigaram a tomar estado! Maria Alexandrovna, n'essa conformidade, não se arreceia seja de quem fôr, e não ha ninguem que possa malograr este casamento.
Paira um borborinho que desde logo se transforma em jubiloso alarido. A Natalia Dmitrievna arremete de braços abertos para Maria Alexandrovna, segue-lhe o exemplo a Anna Nikolaievna, e a Felissata Mikhailovna vem na trazeira do rancho. Põem-se todos de pé, baralham-se. Das damas, algumas ha que estão fulas de raiva. Pegam a dirigir parabens á Zina, atrapalhada, e atiram-se, até, ao Aphanassi Matveich. Maria Alexandrovna estende os braços com enfase, e á viva força, quasi, agarra-se á filha aos abraços a ella. Tão sómente o principe, todo elle a rebulir, a considerar{162} esta scena, de olhos espantados. E d'ahi, agrada-lhe aquillo. Ao ver a filha nos braços da mãe, saca, até, do lenço e limpa o canto do olho onde bugalhou uma lagrima. Atiram-se a elle, tambem, para lhe dar os parabens.