— O mesmo que teria acontecido com o mundo e todos os sistemas estrelados se uma macieira tivesse seis maçãs em vez de sete; algo teria sido eternamente perdido. Nunca houve nada no mundo absolutamente como Notting Hill. Nunca haverá algo parecido com ela até o final do destino. Não posso acreditar em nada, mas que Deus a amou como Ele deve amar tudo o que é próprio e insubstituível. Mas mesmo isso não me importa. Se Deus, com todo os seus trovões, a odiava, eu a adorei.
E com a voz uma figura alta e estranha levantou-se para fora dos detritos na penumbra.
A outra voz veio depois de uma longa pausa, como se fosse rouca:
— Mas suponha que toda a questão fosse realmente um hocus-pocus. Suponha que qualquer significado que você pode atribuir a sua fantasia, o real significado de tudo era uma zombaria. Suponha que tudo era loucura. Suponha...
— Eu estava lá — respondeu a voz da figura alta e estranha — e sei que não era.
A figura menor parecia meio que levantar no escuro.
— Suponha que sou Deus — disse a voz —, e suponha que fiz o mundo em ociosidade. Suponha que as estrelas, que você considera eternas, são somente os fogos de artifício idiotas de uma criança perpétua. Suponha que o sol e a lua, que você louva alternadamente, são apenas os dois olhos de um vasto e sarcástico gigante, abertos alternadamente num piscar de olhos que nunca termina. Suponha que as árvores, aos meus olhos, são tão tolas quanto enormes cogumelos. Suponha que Sócrates e Carlos Magno são para mim apenas animais engraçados caminhando sobre as patas traseiras. Suponha que sou Deus, e tendo feito coisas, rio delas.
— E suponha que eu sou um homem — respondeu o outro. — E suponha que lhe dou a resposta que destrói até mesmo uma risada. Suponha que eu não ria em resposta, não blasfeme, não te amaldiçoe. Mas suponha que, levantando-me reto sob o céu, com todo o poder do meu ser, agradeça por este paraíso de tolos que fizeste. Suponha que eu te louve, com uma literal dor de êxtase, pela brincadeira que me trouxe tão terrível alegria. Se tivemos jogos de criança, e dado-lhes a seriedade de uma Cruzada, se encharcamos seu grotesco jardim holandês com o sangue dos mártires, transformamos um berçário em um templo. Pergunto-lhe, em nome dos Céus, quem vence?
O céu perto das cristas das colinas e árvores estava começando a mudar do preto ao cinza, com uma sugestão aleatória da manhã. A pequena figura parecia rastejar em direção a maior, e a voz estava mais humana:
— Mas suponha, amigo, suponha que, em um sentido mais amargo e mais real, tudo era uma farsa. Suponha que tinha havido, desde o início dessas grandes guerras, um que observava com um sentimento que está além da expressão, um sentimento de desapego, de responsabilidade, de ironia, de agonia. Suponha que havia alguém que sabia que era tudo uma brincadeira.