— Fez tudo isto apenas como uma piada?
— Sim — disse Quin, brevemente.
— Quando concebeu a ideia — continuou Wayne, sonhador — de um exército para Bayswater e uma bandeira para Notting Hill, não havia brilho, nenhuma sugestão em sua mente que essas coisas podiam ser reais e apaixonantes?
— Não — respondeu Auberon, virando o rosto branco e redondo para a manhã com uma maçante e esplêndida sinceridade. — Não tinha ideia nenhuma disso.
Wayne desceu e estendeu a mão.
— Não vou parar de agradecê-lo — disse com uma curiosa alegria em sua voz — pelo grande bem ao mundo que você trouxe. Tudo o que penso que lhe disse há pouco, mesmo quando pensei que a sua voz era a voz de uma irônica onipotência, é riso mais velho do que os ventos do céu. Mas deixe-me dizer o que é imediato e verdadeiro. Você e eu, Auberon Quin, durante toda a nossa vida fomos de novo e de novo chamados de loucos. E nós somos loucos. Somos loucos, porque não somos dois homens, mas um homem. Somos loucos, porque somos dois lóbulos do mesmo cérebro, e cujo o cérebro foi partido em dois. E se você pedir a prova disso, não é difícil de encontrar. Não é apenas que você, o humorista, tenha, nestes dias sombrios, sido despojado da alegria da gravidade. Não é apenas que eu, o fanático, tive que tatear sem humor. É que, embora parecemos ser opostos em tudo, temos sido opostos como homem e mulher, visando ao mesmo tempo a mesma coisa prática. Nós somos o pai e a mãe da Carta das Cidades.
Quin olhou para os restos de folhas e madeira, as relíquias da batalha e do tumulto, agora brilhando à luz do dia em crescimento, e finalmente disse:
— No entanto, nada pode alterar o antagonismo, o fato de que eu ri dessas coisas e você as adorava.
O rosto selvagem de Wayne ficou inflamado como de deus, enquanto virava-se para ser atingido pelo nascer do sol.
— Sei de algo que vai alterar esse antagonismo, algo que está fora de nós, algo que você e eu em todas as nossas vidas, talvez levamos muito pouco em conta. O igual e eterno ser humano irá alterar esse antagonismo, pois o ser humano não vê antagonismo real entre riso e respeito, o ser humano, o homem comum, que meros gênios como eu e você só podemos adorar como um deus. Quando os dias escuros e tristes vêm, você e eu somos necessários, o fanático puro, o humorista puro. Entre nós sanamos um grande erro. Levantamos as cidades modernas para a poesia que todo aquele que conhece a humanidade sabe que é infinitamente mais comum do que o comum. Mas, em pessoas saudáveis, não há guerra entre nós. Nós somos apenas os dois lóbulos do cérebro de um lavrador. O riso e o amor estão em toda parte. As catedrais, construídas nas eras que amavam a Deus, estão cheias de blasfemas grotescas. A mãe ri continuamente para a criança, o amante ri continuamente à amante, a esposa ao marido, o amigo ao amigo. Auberon Quin, estamos a muito separados, vamos embora juntos. Você tem uma alabarda e eu uma espada, vamos começar nossas andanças pelo mundo inteiro. Pois somos seus dois fundamentos. Venha, já é dia.