Citadinos de quatro num campo cheio de costeletas de vitela.

E por outro lado, algumas pessoas previam que as linhas de parentesco se tornariam mais estreitas e rigorosas. Entre elas, o Sr. Cecil Rhodes, que pensava que a única coisa do futuro seria o Império Britânico, e que haveria um abismo entre aqueles que eram do Império e aqueles que não eram, entre o chinês em Hong Kong e o chinês de fora, entre o espanhol no Rochedo de Gibraltar e do espanhol fora dele, semelhante ao abismo entre o homem e os animais inferiores. E da mesma forma seu impetuoso amigo, Dr. Zoppi (“o Paulo do anglo-saxonismo”), foi ainda mais longe, e declarou que, como resultado desse ponto de vista, o canibalismo deveria significar comer um membro da Império, e não comer um membro dos povos submetidos, que deveriam, segundo ele, ser mortos sem dor desnecessária. Seu horror à ideia de comer um homem da Guiana Inglesa mostrou as pessoas como elas não haviam compreendido seu estoicismo, que o consideravam desprovido de sentimento. Ele ficou, no entanto, em uma posição difícil, pois foi dito que ele tinha tentado o experimento, e, vivendo em Londres, tinha subsistido inteiramente de moídos de italianos. O seu fim foi terrível, pois quando ele tinha recém começado, Sir Paul Swiller leu seu grande artigo na Royal Society, provando que os selvagens não apenas faziam muito bem em comer seus inimigos, mas tinham direito por razões morais e de higiene, pois era verdade que as qualidades do inimigo comido, passavam para o comedor. A noção de que a natureza de um órgão de um homem italiano estava irrevogavelmente crescendo e florescendo dentro dele era mais do que o velho e gentil professor poderia suportar.

Havia também o Sr. Benjamin Kidd, que disse que a marca crescente de nossa raça seria o cuidado e conhecimento do futuro. Sua ideia foi desenvolvida com mais força por William Borker, que escreveu aquela passagem que todo estudante sabe de cor, sobre os homens em eras futuras chorando pelos túmulos de seus descendentes, e os turistas que estão sobre a cena da histórica batalha que deveria realizar-se alguns séculos depois.

E o Sr. Stead, também proeminente, que achava que a Inglaterra no século XX se uniria a América; e seu jovem tenente, Graham Podge, que incluiria os estados de França, Alemanha e Rússia na União Americana, o Estado da Rússia sendo abreviado para Ra.

Havia também o Sr. Sidney Webb, quem disse que que o futuro veria um aumento continuo da ordem e limpeza na vida das pessoas, e seu pobre amigo Fipps, que enlouqueceu e correu o país com um machado, cortando os galhos das árvores, sempre que não tivesse o mesmo número em ambos os lados.

Todos estes homens inteligentes estavam profetizando com toda a sorte de engenhos o que iria acontecer em breve, e todos eles fizeram isso da mesma maneira, tomando algo de “forte tendência”, como se diz, e esticando-o tanto quanto a sua imaginação aceitava. Isso, segundo eles, era o verdadeiro e simples caminho de antecipar o futuro. “Assim”, disse o Dr. Pellkins, em uma bela passagem, “quando vemos um porco em uma ninhada maior do que os outros porcos, sabemos que por uma lei inalterável do Inescrutável, este porco vai algum dia ser maior do que um elefante, da mesma forma como sabemos, quando vemos ervas daninhas e dentes de leão crescendo mais grossos em um jardim, que estes devem, apesar de todos os nossos esforços, crescer mais altos do que as chaminés e encobrir a casa, do mesmo modo que sabemos reverentemente reconhecer que, quando qualquer poder na política humana atinge considerável destaque por algum período de tempo, este vai continuar até atingir o céu.”

Certamente parece que os profetas haviam colocado as pessoas (envolvidas no velho jogo de Engane o Profeta) em uma dificuldade sem precedentes. Parecia muito difícil fazer qualquer coisa sem cumprir algumas de suas profecias. Mas havia, no entanto, nos olhos dos trabalhadores nas ruas, dos camponeses nos campos, dos marinheiros e das crianças, e especialmente as mulheres, um olhar estranho que manteve os homens sábios em um perfeito estado de dúvida. Eles não podiam imaginar a alegria imóvel em seus olhos. Eles ainda tinham algo na manga, pois eles ainda estavam jogando o jogo de Enganar o Profeta. Então nos sábios cresceu uma dúvida selvagem, que os agitava de cá para lá e passaram a gritar: “O que pode ser? O que pode ser? O que será de Londres daqui a um século? Há algo que não se tenha pensado? Casas de cabeça para baixo... mais higiênicas, talvez? Homens andando em mãos-pés flexíveis, talvez? ... Veículos lunares motorizados ... sem cabeça....” E assim, eles se agitavam e se perguntavam até que morreram e foram respeitosamente enterrados. Então o povo foi e fez o que queria. Não vou mais esconder a dolorosa verdade. As pessoas tinham enganado os profetas do século XX. Quando a cortina sobe nesta história, oitenta anos após a data presente, Londres é quase exatamente como é agora.

O Homem de Verde

Poucas palavras são necessárias para explicar por que a Londres de daqui a cem anos será muito parecida com a de agora, ou melhor, dado que devo falar a partir de um passado profético, por que Londres, quando a minha história começa, é muito parecida daquela dos dia invejáveis enquanto ainda estava vivo.

A razão pode ser expressa em uma frase. As pessoas tinham perdido absolutamente a fé em revoluções. Todas as revoluções são doutrinárias, tais como a francesa, ou a que introduziu o cristianismo. Pois para o senso comum não se pode virar todo o existente, os costumes e compromissos, a menos que acredite-se em algo transcendente, algo positivo e divino. Agora, a Inglaterra, durante este século, perdeu toda a crença nisso. Passou a acreditar em algo chamado Evolução. E disse: “Todas as mudanças teóricas acabaram em sangue e tédio. Se mudarmos, temos de mudar lentamente e com segurança, como os animais fazem. As revoluções da natureza são as únicas bem-sucedidas. Não houve reação conservadora em favor das caudas.”