E algumas coisas mudaram. Coisas em que não se reparava muito sumiram de vista. Coisas que aconteciam poucas vezes passaram a não acontecer de todo. Assim, por exemplo, a força física real de governar o país, os soldados e policiais, ficaram cada vez menores, até quase desaparecer. As pessoas combinadas poderiam ter varrido os policiais que restaram em dez minutos: mas não o fizeram, porque não acreditavam que isso iria fazê-las algum bem. Elas tinham perdido a fé em revoluções.
A democracia estava morta, porque ninguém se importava qual classe governante governava. A Inglaterra era agora praticamente um despotismo, mas não hereditário. Alguém na classe oficial era nomeado rei. Ninguém se importava como e ninguém se importava quem. Ele era apenas um secretário universal.
Desta forma, tudo em Londres estava bem quieto. Aquela vaga e um tanto quanto depressiva confiança nas coisas acontecendo como sempre acontecem, que é para todos os londrinos um estado de espírito bem familiar, tinha se tornado uma condição constante. Não havia realmente nenhuma razão para qualquer homem fazer qualquer coisa além do puro hábito.
Portanto, não havia qualquer razão pelo qual três jovens que sempre caminharam em conjunto até o escritório do governo não deveriam caminhar juntos nesta manhã de inverno. Tudo nesta era tornou-se mecânico, principalmente os secretários do governo. Todos esses funcionários se reuniam regularmente em seus postos. Três desses funcionários sempre andavam para a cidade juntos. Toda a vizinhança os conhecia: dois deles eram altos e um baixo. E nesta manhã o secretário baixo estava apenas alguns segundos atrasado para se juntar aos outros dois que passavam por sua porta: ele poderia ultrapassá-los em três passos, ele poderia chamá-los facilmente. Mas não o fez.
Por alguma razão, que nunca será entendida até que todas as almas sejam julgadas (se é que elas serão julgadas, a ideia era, neste momento, classificada como culto fetichista), ele não juntou-se aos seus dois companheiros, mas caminhou firmemente atrás deles. O dia estava cinza, sua vestimenta era cinza, tudo era cinza, mas por algum impulso estranho ele andou rua após rua, distrito após distrito, olhando para as costas dos dois homens, que teriam virado-se ao som de sua voz. Agora, há uma lei escrita no mais escuro dos Livros da Vida, e é esta: Se você olhar para algo novecentas, noventa e nove vezes, você está perfeitamente seguro, se você olhar pela milésima vez, você está sob o terrível perigo de vê-lo pela primeira vez.
Assim, o funcionário do governo mais baixo olhava para as caudas dos casacos dos funcionários do governo mais altos, e rua após rua, esquina após esquina, vendo apenas caudas, caudas, e novamente caudas — quando, sem saber o porquê, algo aconteceu aos seus olhos.
Dois dragões negros estavam andando para trás na frente dele. Os dois dragões negros estavam olhando para ele com olhos malignos. Era verdade que dragões estavam caminhando para trás, mas eles mantinham os olhos fixos nele. Os olhos que ele viu eram, na verdade, apenas os dois botões na parte de trás de uma casaca: talvez alguma memória tradicional da insignificância dos botões deu um destaque imbecil ao olhar. A fenda entre as caudas era a linha do nariz do monstro: sempre que as caudas agitavam com o vento do inverno os dragões lambiam seus lábios. Foi apenas uma fantasia momentânea, mas para o pequeno funcionário ficaria gravada em sua alma para sempre. Ele nunca poderia voltar a pensar em homens vestidos de casacos, exceto como dragões andando para trás. Ele explicou depois, com bastante tato e cortesia, a seus dois amigos oficiais que (enquanto sentia uma consideração inexprimível para com eles) ele não poderia seriamente considerar o rosto deles como qualquer coisa exceto uma espécie de cauda. Era, ele admitiu, um belo rabo, uma cauda elevada no ar. Mas se, segundo ele, qualquer verdadeiro amigo deles desejasse ver seus rostos, para ver dentro dos olhos de suas almas, que ao amigo deve ser permitido andar com reverência atrás deles, de modo a vê-los por trás. Lá, ele veria os dois dragões negros com os olhos cegos.
Quando pela primeira vez os dois dragões negros saltaram no nevoeiro sobre o pequeno funcionário, tiveram meramente o mesmo efeito de todos os milagres — eles mudaram o universo. Ele descobriu o fato que todos os românticos sabem — que aventuras acontecem em dias sombrios, e não nos ensolarados. Quando a corda da monotonia é tensionada ao máximo, então arrebenta com o som de uma música. Ele mal havia notado o clima antes, mas com os quatro olhos mortos fixos nele, olhou em volta e percebeu o estranho dia morto.
A manhã estava invernal e turva, não enevoada, mas escureceu com a sombra da nuvem ou neve que impregna tudo num crepúsculo verde ou cobre. A luz que existe em tal dia não parece vir dos céus claros mas de uma fosforescência apegada às próprias formas. A carga do céu e das nuvens é como uma carga de água, e os homens movem-se como peixes, sentindo que eles estão no fundo de um mar. Tudo numa rua de Londres completa a fantasia, as carruagens e táxis lembram criaturas da profundeza com olhos de fogo. Ele ficou assustado inicialmente ao encontrar dois dragões. Agora descobriu que estava entre dragões marinhos que possuem o fundo do mar.
Os dois jovens que estavam na frente eram, como o pequeno, bem vestidos. As linhas de seus casacos e chapéus de seda tinham a luxuriante severidade que torna o almofadinha moderno, horrível como ele é, num exercício favorito do desenhista moderno: esse elemento que o Sr. Max Beerbohm admiravelmente expressa em falar de “certas harmonias entre o roupas escuras e a perfeição rígida do linho”.