— Apenas sentindo, senhor — respondeu o superintendente. — Nasci, como os outros homens, num ponto da terra que amei, porque brinquei jogos de meninos lá, e me apaixonei, e conversei com os meus amigos em noites que eram noites dos deuses. E sinto o mistério. Estes pequenos jardins onde dissemos nossos amores. Essas ruas onde nós colocamos nossos mortos. Por que deveriam ser comuns? Por que deveriam ser absurdos? Por que deveria ser grotesco dizer que uma caixa de correio é poética quando, por um ano não podia ver uma caixa de correio vermelha contra o amarelo do anoitecer numa determinada rua sem ser sacudido por algo que Deus guarda em segredo, mas que é mais forte do que a alegria ou a tristeza? Por que alguém deveria levantar uma risada, ao dizer a “causa de Notting Hill”? Notting Hill, onde milhares de espíritos imortais brilham ora com esperança, ora com medo.

Auberon estava sacudindo a poeira de sua luva com uma nova seriedade em seu rosto, distinta da solenidade de coruja que era a pose de seu humor.

— É muito difícil — disse finalmente. — É uma dificuldade maldita. Vejo o que você quer dizer. Até concordo com você em certo ponto ou gostaria de concordar, se eu fosse jovem o suficiente para ser um profeta ou poeta. Sinto uma verdade em tudo que diz, até chegar às palavras ’Notting Hill’. E então lamento dizer que o velho Adão acorda morrendo de rir e acaba com o novo Adão, cujo nome é Wayne.

Pela primeira vez o superintendente Wayne ficou em silêncio, e ficou olhando sonhadoramente para o chão. A noite se aproximava, e o quarto tinha ficado mais escuro.

— Eu sei — disse ele, numa voz estranha, quase sonolenta. — Também há verdade no que diz. É difícil não rir com nomes comuns, digo apenas que não se devia. Tenho pensado num remédio, mas tais pensamentos são bastante terríveis.

— Que pensamentos? — perguntou Auberon.

O superintendente de Notting Hill parece ter caído em uma espécie de transe, nos seus olhos havia uma luz élfica.

— Sei de uma varinha mágica, mas é uma varinha que apenas um ou dois podem usar corretamente, e só raramente. É uma varinha de grande medo, mais forte do que aqueles que a usam, muitas vezes assustadora, muitas vezes perversa. Mas o que é tocado com ela nunca mais é totalmente comum, o que é tocado recebe uma magia fora do mundo. Se eu tocar, com esta varinha, as ferrovias e as estradas de Notting Hill, os homens irão amá-las, e terão medo delas para sempre.

— Do que diabo você está falando? — perguntou o rei.

— Ela fez paisagens medianas serem magníficas, e casebres durarem mais do que catedrais — continuou o louco. — Por que não poderia fazer de postes de luz mais mágicos do que as lâmpadas gregas? E um passeio de ônibus, como de um navio pintado. O toque dela é o dedo de uma estranha perfeição.