— Como aquelas cercas agitam o sangue de uma pessoa!

Seu amigo, que também era um grande admirador intelectual, olhou diligentemente, mas sem qualquer emoção particular. Ficou tão preocupado com isso que voltou um grande número de vezes em noites calmas e olhou para a cerca, esperando que algo acontecesse com o seu sangue, mas sem sucesso. Por fim, perguntou a Wayne. Ele descobriu que o êxtase estava num ponto que nunca tinha notado a respeito da cerca, mesmo depois de suas seis visitas, o fato de que eram, como a grande maioria em Londres, afiadas no topo, à maneira de uma lança. Quando uma criança, Wayne tinha inconscientemente as comparada com as lanças nas imagens de Lancelot e St. George, e cresceu sob a sombra desta associação gráfica. Agora, sempre que olhava para elas, eram simplesmente as armas cerradas que faziam uma cobertura de aço em volta das casas sagradas de Notting Hill. Ele não podia limpar a sua mente deste significado mesmo que tentasse. Não era uma comparação fantasiosa, ou algo assim. Não é que as familiares cercas lembravam lanças, seria muito mais verdadeiro dizer que as familiares lanças ocasionalmente lembravam cercas.

Alguns dias depois de sua entrevista com o Rei, Adam Wayne andava como um leão enjaulado na frente de cinco lojas que ocupavam a extremidade superior da disputada rua. Eram uma mercearia, uma farmácia, uma barbearia, uma loja de velhas curiosidades e uma loja de brinquedos, que também vendia jornais. Foram estas cinco lojas que sua meticulosidade infantil selecionou pela primeira vez como os pontos essenciais da campanha de Notting Hill, a cidadela da cidade. Se Notting Hill era o coração do universo, e Pump Street era o coração de Notting Hill, este era o coração de Pump Street. O fato delas serem todas pequenas e uma ao das outras realizava o sentimento de conforto formidável e compacto que, como já dissemos, era o coração do seu patriotismo, e de todo o patriotismo. O merceeiro (que tinha licença para vinho e aguardentes) foi incluído porque podia fornecer provisões à guarnição; a loja de velhas curiosidades porque continha espadas suficientes, pistolas, alabardas, bestas e bacamartes para armar um regimento irregular inteiro; a loja de brinquedos e jornais porque Wayne considerava uma imprensa livre um centro essencial para a alma de Pump Street; a farmácia para lidar com surtos de doenças entre os sitiados; e o barbeiro porque estava no meio de todo o resto, e filho do barbeiro era um amigo íntimo com afinidade espiritual.

Era uma noite sem nuvens de outubro passando do púrpura até a pura prata ao redor dos telhados e chaminés da rua pouco íngreme, que parecia preta, afiada e dramática. Nas sombras profundas as frentes iluminadas a gás as lojas brilhavam como cinco fogos em uma fileira e, antes deles, obscuramente esboçado como um fantasma contra fornos do purgatório, passava de lá para cá a alta figura, como um pássaro com nariz de águia, de Adam Wayne.

Ele balançava seu bastão inquieto e parecia intermitentemente falar sozinho:

— Há, afinal, enigmas, mesmo para o homem que tem fé. Há dúvidas que permanecem mesmo depois que a verdadeira filosofia é concluída em cada degrau e rebite. E este é um deles. Será que a necessidade do ser humano normal, a condição humana normal, é maior ou menor do que os estados especiais da alma que clamam por uma glória duvidosa e perigosa? Esses poderes especiais do conhecimento ou do sacrifício que são possíveis apenas pela existência do mal? Qual deve vir primeiro para a nossas afeições, as sanidades duradouras da paz ou as virtudes meio maníacas de batalha? O que deve vir em primeiro lugar, o grande homem no cotidiano ou o grande homem na emergência? O que deve vir em primeiro lugar, para voltar ao enigma diante de mim, o dono da mercearia ou da farmácia? O que é mais certamente a estadia da cidade, o rápido cavalheiresco farmacêutico ou o benigno provedor merceeiro? Nessas últimas dúvidas espirituais, só é possível escolher um lado pelos instintos mais elevados, e para terminar a questão. Em qualquer caso, fiz a minha escolha. Que seja perdoado se escolho errado, mas escolho o merceeiro.

— Bom dia, senhor — disse o merceeiro, que era um homem de meia-idade, parcialmente calvo, com duros bigodes vermelhos e barba, a testa alinhada com todos os cuidados de um pequeno comerciante. — O que eu posso fazer por você, senhor?

Wayne tirou o chapéu ao entrar na loja, com um gesto cerimonioso, que, embora ligeiro, fez o comerciante olhá-lo com um pouco de espanto.

— Venho, Senhor — disse ele sobriamente —, apelar ao seu patriotismo.

— Por que, senhor — disse o dono da mercearia —? Isto soa como os tempos em que era um menino e estávamos habituados a ter eleições.