Jeronymo de Carnide, moço da camara, esteve em Roma com o embaixador D. Alvaro de Castro: foi provedor de saude no periodo terrivel das pestes e contagios; basta dizer que foi guarda-mór de saude do Reino em tempo de D. Sebastião. Era natural de Cintra; viveu 120 annos (1503-1623), alcançando os reinados de D. Manuel, D. João III, D. Sebastião, D. Henrique e os Filippes I e II. Um seu filho, Balthazar de Carnide, viveu 100 annos.

Os Carnides mencionados nas genealogias são quasi todos de Cintra; é certo que ainda hoje apparece este appellido em familias de Cintra e de Torres Vedras.


Propriedade territorial na idade média.—Ha documentos relativos a propriedade territorial em Carnide, nos fins do seculo XII, e primeiro quartel do XIII. É bem raro encontrar uma série tão variada de taes documentos. Não nos é todavia possivel marcar com precisão, com exactidão, o local da propriedade, ou quinta de que se trata.

Porque as propriedades variam muito, dividem-se, aggregam-se; as extremas fluctuam; os nomes alteram-se.

Os documentos de Urraca Machado, dóna de Chellas, isto é, freira do mosteiro de Chellas, foram publicados pelo erudito sr. Pedro de Azevedo, no Archivo Historico Portuguez, vol. III, pag. 5 e seg.

Quem era esta senhora? era dona Orraca Martins, filha de Martim Machado, professa do Mosteiro de Chellas, que andava fóra da Ordem, quer dizer, ausente por muito tempo do seu convento. Tinha bens e parentes proximos em Carnide, e o seu compromisso com a Ordem. Ora constou que ella vendia e desbaratava esses bens, em damno do mosteiro, este protestou, e por isto a série de documentos muito especiaes e valiosos. O protesto é de 1299, tempo de D. Diniz; foi lavrado no concelho da cidade de Lisboa, perante o alcaide e alvazis.

No terceiro documento, de 1308, falla-se da quinta de Carnide, em que a freira tinha uma parte. No quarto documento, de 1309, se diz que as rendas de Carnide foram arrematadas a Salomão Negro, judeu. A familia judaica Negro apparece em documentos do seculo XIII ao XV.

David Negro era o famoso thesoureiro de Leonor Telles, quando proprietario em Camarate e na Outra Banda. A outra parte da quinta pertencia a Martim Martins Machado, irmão da freira. O documento é interessante; trata do arrendamento, almoeda, e negocios, em que houve malfeitoria; o instrumento ou contracto que o judeu apresentou não afinava com a nota tabellioa, havia mentira e burla. Este instrumento, declara o tabellião, foi escripto em papel porque não havia porgamyo decoyro. Acontecia isto por vezes; em cousas officiaes usava-se o pergaminho; quando este faltava, lançavam mão do papel. E certo é que papel e tinta chegaram até nós; bom papel e boa tinta; não sei quantos annos durarão certos papeis e tintas usados actualmente.

O documento n.ᵒ 7 é uma carta regia, ou sentença de D. Diniz, passada em 1311, sobre a partição dos bens da freira e de João Machado, tambem seu irmão. A monja de Chellas tinha terras em Carnide, nos sitios da Panasqueira e na Feiteira.