Panasqueira é na parte norte da moderna quinta de Montalegre, formada pelo fallecido Carlos Anjos, entre as estradas de Telheiras, Luz e da Fonte.

Não é facil marcar os sitios das propriedades; diz-se sob a fonte, na varzea, na corredoura, designando as fazendas pelos nomes dos donos, pessoas bem conhecidas em 1311. Mas já havia no sitio vinha velha, moinho e almoinha ou horta, courellas e ferrageaes, adega com material vinario, tinas, toneis e cubas, já se falla das covas de Carnide. Trata-se me parece de covas de guardar pão ou cereaes, silos; em 1908, modificando-se a calçada no Alto do Poço, appareceram duas grandes covas, abertas no solo, de dois metros de fundo por um e meio de diametro, quasi totalmente entulhadas. As paredes estavam nitidas, bem conservadas. As pessoas da localidade ignoravam o destino d’aquellas grandes cavidades, o que succede, me parece, por todo o paiz. E todavia no seculo XVI ainda se utilisavam os silos ou matamorras, e no centro de Espanha ainda hoje estão em uso. Em Lisboa, na grande obra municipal de ha poucos annos, ao Arco do Marquez do Alegrete, tambem appareceram silos, ao longo da muralha fernandina.

O documento n.ᵒ 10 é de 1312; refere-se a certa divida de João Machado a Isaac, filho de Judas Negro, outro judeu da familia Negro; e a uma courella do Cano, pertencente a Urraca Machado. O n.ᵒ 12, de 1313, falla-nos da courella da Coelheira, da qual traz as confrontações pelo sol levante, aguião, poente e avrego. Aguião quer dizer aquilão ou norte, e avrego vem de africo, ou vento de Africa, isto é, sul. N’este documento figura Domingas Eanes, prioreza de Chellas, e Ousenda Domingues, sub-prioreza. Já menciona a aldeia de Carnide com seu rocío.

Em 1321, com licença do mosteiro de Chellas, a freira Urraca Machado entregava por aforamento os seus bens de Carnide a um Rodrigo Eanes, por duzentos maravedis de Portugal, pagos ás metades do anno por Paschoa e Santa Iria, mais doze almudes de vinho. Não é bem um aforamento, é um arrendamento a longo prazo, em vidas, pois só termina depois da morte do rendeiro, de sua mulher e filho. O contracto tem penas severas e condições bem determinadas, como a de o rendeiro fazer á sua propria custa almoinha ou hortejo, e plantação de vinha, concertos de casas, adegas e lagares, e de sua louça.

Em 1325 já a dóna Urraca era fallecida; mas havia freiras de Chellas na sua casa de Carnide; por causa de certa questão de posse foram ahi notarios que viram duas freiras em uma camara sob a torre. N’esse tempo era Clara Gonçalves prioreza de Chellas; é notavel que n’este mesmo documento se lhe chama abbadessa. N’esta época a questão chegou á maior intensidade, houve violencia, e Martim Machado foi excommungado.

Em 1390 foi a quinta de Carnide emprazada em tres vidas a Martim Annes; confrontava com as herdades de fuão e fuão, e do mosteiro de Santa Clara de Lisboa...

Era uma quintam de herdades de vinhas e de pão que o dito mosteiro ha na aldeia de Carnide, termo da dita cidade (Lisboa).

A par dos elementos relativos á quintam, apparecem outros em razão das confrontações, das testemunhas, etc.

Assim n’um documento de 1313 se falla de uns quartos de courellas de vinhas que o mosteiro havia em Carnide no herdamento do Louro; de uma testemunha se diz: fuão morador ao Louro, no casal da Ordim.

Em 1352: quinta no logo que chamam Alperiate... casal e herdades de pão sitas em Queylus... uma vinha que chamam a Coelheira, a par de Carnide. Alperiate, ou Alpriate, é o nome de uma localidade perto da Povoa de Santa Iria.