Algum frade engenhoso fez aquelles quebra-cabeças, para maravilha dos romeiros. A esta ermida se liga a historia do rei da Ericeira.


A bruxa da Arruda.—A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos oiros. Tem uma filha que já entende de molestias. Em geral leva 300 réis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calôr, e no sitio do corpo. Ouvi tambem chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos.

Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ella pelo cheiro conhece a molestia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da villa, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venéra e teme.

==Já teve questões com padres e medicos, já foi aos tribunaes, me disse alguem, e ficou sempre victoriosa!==


O brazão da Ericeira.—Tenho visto representado no brazão da Ericeira um ouriço cacheiro, e outras vezes um ouriço do mar, inteiro, com sua armadura de espinhos, visto de lado, o que me parece mais logico. Na Fonte do Cabo sobre a inscripção está uma pedra esculpida que deve ser a representação mais antiga das armas da villa, e, se me não engano, quizeram ali representar a boca do ouriço maritimo, donde divergem séries de linhas formando cruz, e um lavor ponteado que allude aos espinhos, admittindo o engano ou convenção das quatro fachas divergentes que deveriam ser cinco se o canteiro fosse mais cauteloso.


O primeiro foral da Ericeira.—Do primeiro foral da Ericeira guarda-se o autographo na Torre do Tombo; está publicado na integra no Port. Mon. Hist. na parte respectiva a foraes, pag. 620. E por esta razão não o transcrevo aqui. É da era 1267 que corresponde ao anno 1229. Foi concedido por D. Fernando mestre da ordem d’Aviz: Ego frater F. magister Avis una cum omni meo conventu do atque concedo populatoribus de Eyrizeira... Note-se que a pronuncia local de hoje é Eiriceira embora toda a gente escreva Ericeira.

Como todos os foraes das povoações da costa maritima este se refere a barcos, a maritimos e pescadores, á pescaria, e aos impostos especiaes do pescado: por exemplo aos pescadores do alto mar, e á baleacion, ou pesca da baleia, então commum a todo o mar português. Faz menção especial de congros, toninhas e golfinhos; e dos apparelhos de pesca, bigeiro, udra et rete de costana; do pescado fresco, recente e secco. No porto entravam mercadorias: de tota merchandia que per mare ad portum venerit et voluerint vendere dent quarentena. Havia revendedores de peixe: de coloneiro qui comparar piscatum pro a revender det I denarium.