«Entram certas figuras de pastores e oferecem ao príncepe os ditos presentes.»
+Nota+
Nota
Quando comecei a traduzir este lindo monólogo, os versos entraram logo a construir-se espontâneos na nossa linguagem. E tão facil foi o trabalho, que apenas o verso:
Juri á Sanjunco santo!,
que representa o pitoresco de uma exclamação sem sentido em português, não entra nesta versão quase justalinear. Passado á nossa lingua, depois de tantos annos ter incerrada no seu duro castelhano a doce alma portuguesa, parece-me que o monólogo ganhou em lirismo,—o lirismo que a nossa linguagem impresta ás falas sinceras que do seu ritmo se ajudam. Porque onde o castelhano, aspirado e cerrado, põe a força e o garbo—e põe-nos até na doçura—o português requebra a modulação suave do seu tom menor. Estranho parecerá que nenhum dos nossos homens de teatro (que o autor de estas linhas não é) se não lembrasse ha muito de trazer para a scena este monólogo incantador, esta peça da mais viva poesia, integrando na decorativa moldura da reconstituição histórica, a figura desimpenada do Vaqueiro. Quando este aparece na câmara da rainha, perseguido pelos guardas que lhe estorvam a passagem,—é, em verdade, o Povo que aparece, falando de mão a mão ao seu rei, na consciência da sua força meiga e orgulhosa!
É o Povo, a criança admirativa, que é doida por livros de imagens, quem se boquiabre ante a câmara sumptuosa, cuja riqueza, entanto, lhe provoca desconfianças; e em cujo sobrado precioso, planta todavia com firmeza os seus rudos sapatos, afeitos a trilhar calhaus de serra. É elle ainda quem dirige á rainha, com uma familiaridade tocante e tão graciosa, as preguntas extra-protocolares, de gótica simplecidade:
se certo é que pariu Vossa Nobreza?,
e quem logo descobre, no rosto da mulher desfalecida e incantada, o indício da alegria maternal, que a seguir descreve em versos admiraveis, cuja adjectivação nos faz ver a radiação moral de aquele rosto.
É sempre o Povo quem ali descortina, por obra do seu fresco sentimento, para àlem da alegria dinástica, que celebra,—a alegria da familia, que o comove. E esta, ao descer por um instante do trono mais poderoso da sua época, por um instante tambem nos entra no coração, quando a minúcia atenciosa do Vaqueiro nomeia a um e um os membros da familia: