Que pai, que filho, e que mãe!
Oh que avó, que avós os seus!
E suas tias, tambem!
É o Povo, e só podia ser elle, quem ao príncepe, futuro senhor do mundo, oferta com tão nobre franqueza os seus pobres e rústicos presentes, cuja alta beleza não sonha; e quem lhe traz,—com as desculpas indispensaveis ainda hoje nas nossas províncias,—os queijos e os ovos, o leite e o mel… Nenhuma página de Gil Vicente se me afigura portanto mais viva, mais espontânea do que esta, que nos recorda um episódio de presépio, pintado em fundo azul por um Giotto um pouco tardio, estranho aos esplendores mais deslumbrantes mas menos sentidos da Renascença, e que pôde guardar, do íntimo contato com a natureza e com seus irmãos, uma frescura de menino entre doutores.
Na nossa hora incerta, ao mesmo tempo triste e renascente, consolêmo-nos com estas belas redondilhas do Vaqueiro, que vem a casa dos grandes, iluminá-los e incantá-los um momento com a graça da sua cândida alegria. E emquanto se não funda em Portugal a Sociedade Luis de Camões, sobre o molde da Sociedade Dante Alighieri—lar do pensamento italiano—e a que pertençam homens sinceros de todas as classes, vindos de todas as escolas filosóficas, de todas as crenças religiosas, intimamente congregados em promover um moderno amor da patria, á roda de esse nome que para sempre nos simboliza,—consolêmo-nos, sobretudo, acreditando que o povo, donde esse pastor saíu, guarda no fundo da alma,—onde dormem ainda, para lentas desabrocharem, forças indómitas e novas,—esse mesmo poder de saudar e estremecer, não já um príncepe que nasce, mas uma terra redimida que quer viver e amar!
Fevereiro de 1910.
ERRATA
Da infelicidade da composição, erros da escritura e outras imperfeições da estampa, não ha que dizer-vos: —vós os vêdes, vós os castigae.
D. Francisco Manuel.
AFFONSO LOPES VIEIRA
O Povo e os poetas portugueses (conferência realizada no teatro D. Maria II, e vendida a favor da Escola-monumento João de Deus, em Lisbôa)—preço, 200 réis.