O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração de Artigas e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens tinham no mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido da civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam do coração uma victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional que trazia a brutal tyrannia da força material. Comtudo não obstante os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos, dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo, Artigas representava ainda, se não pelas suas forças, ao menos pelo seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou, contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas forças, e derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança de reconquistar a sua posição perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo, parecia ganhar novas forças todas as vezes que ahi tocava.
Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois de ter deixado a desolação e as ruinas na sua passagem, Artigas desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como já dissemos, em 1848 na época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas forças.
Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez que se estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna francez de origem foi seu representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possessões portuguezas da America foram cedidas ao Brazil.
Montevideo foi então occupado por um exercito de oito mil homens e tudo parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse.
Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, residente em Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle, e decidiram que dariam a liberdade á patria ou que morreriam.
Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no Grande Areal.
O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.
Lavalleja havia de antecipação tido relações com um proprietario do paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos. Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido roubados e que Lavalleja e os seus companheiros não tinham outro partido a tomar senão embarcarem de novo e o mais depressa possivel, devendo dirigir-se para Buenos-Ayres.
Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, nem queria recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da liberdade.
No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos, com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital, mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.