Até então a galeota chamava-se Luiza.
O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles, não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.
Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que punir.
Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.
Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade engajaram-se como marinheiros.
Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á republica oriental de Uruguay.
Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e apurar algum dinheiro.
Nós ficámos em Maldonato,—quer dizer á entrada d'esse magnifico rio que na sua embocadura tem trinta leguas de largo—durante oito dias que se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha.
Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a tractar em terra.
Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato, não tinha tempo a perder.