Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me tranquillamente para casa do negociante.
Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida corria risco.
Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação apresentei-lhe uma pistola aos peitos:
—O meu dinheiro, lhe disse eu.
Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil patacões que me devia.
Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.
Ás onze horas da noute levantámos ancora.
IX
O RIO DA PRATA
Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos cachopos das Pedras Negras.
Como me achava em tal situação é que eu não podería explicar. Não havia dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa, consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar.