Tendo passado os Mattos atravessámos a provincia das Missões, dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena provincia, depois de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito.
Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me tinham fatigado em quanto era só, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a separação de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia, fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse receber noticias de meu pae e minha mãe, porque se tinha por um momento esquecido essas ternas affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não tinha noticias da minha outra mãe, da Italia!
Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois licença ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a venda devia servir para me sustentar durante a jornada.
XXXVI
CONDUCTOR DE BOIS
Eis-me pois truppiere, isto é conductor de bois.
Em consequencia n'uma estancia chamada o Casal das Pedras, com a authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos capatazes, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.
Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi, ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.
É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais charos e melhores amigos.
Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer, tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America do Sul.
Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes disse: