Os d'esse rei namorado,
Que não fosse alguem beber
Por esse vaso sagrado,
E viesse a conhecer
Os cariciosos perfumes
Que o tinham embriagado...
Hontem, á tarde, beijando-a
De teu labio a viva rosa,
Lembrou-me a historia singela
D'essa ballada amorosa;
E dentro em mim de repente
Tam extranha dôr senti,
Que num impeto demente
De teu labio humido e ardente
Com tôrvo aspecto fugi!
Lembrou-me, cabeça louca!
Que se eu acaso morresse,
Talvez um outro sorvesse
Os beijos da tua bôcca...
E no azul indefinido,
Ó minha piedosa anémona!
Cuidei ouvir o gemido
Da moribunda Desdemona...
Ai, desavisado amôr!
Perdôa, sombra adorada!
Nunca eu te avistasse, flôr!
Nunca eu te lêsse, ballada!