II
A vida de Gregorio de Mattos que occorre em seguida foi escripta, ao que parece, na Bahia, por meiados do XVIII seculo, pelo licenceado Manuel Pereira Rebello, para preceder as obras ineditas do poeta colligidas por elle.
Esta vida, que na opinião de Varnhagen «é um tecido de anedoctas comicas e chistosas que farão de certo apparecer um dia no tablado com muito bom exito o nosso poeta» conservava-se inédita.
A cópia de que me servi para a sua publicação pertence ao dr. J. A. Alves de Carvalho e é escripta pelo punho de Manuel Ferreira Lagos. O conego Januario da Cunha Barbosa, o commendador J. Norberto, Varnhagen, José Maria da Costa e Silva e Innocencio Francisco da Silva tambem possuiam cópias d’ella; todos elles se valeram d’esta curiosa biographia do famoso satyrico bahiano para nos darem os traços, posto que resumidos, da sua vida, direi melhor peregrinação pelo mundo.
Depois de impressa esta biographia tive o ensejo de ver outra cópia diversa em parte, e como contém outros factos da vida do poeta, algumas alterações e numerosas variantes, que não se acham na que ora sahe publicada, reservo-a para da-la na sua integra no fim do ultimo tomo das Obras. Esta cópia pertence a Sua Magestade o Imperador, adquirida do espolio de Innocencio da Silva; precede á primeira collecção das obras do poeta a que acima me refiro, occupando as primeiras 56 paginas do codice e tem o seguinte titulo:
Vida do Doutor
GREGORIO DE MATTOS
GUERRA
Escritta pelo Lecenciado Manoel
Pereyra Rabello.
A cópia pertencente a Sua Magestade apresenta uma grande divergencia na data do nascimento de Gregorio de Mattos, porque na que ora sahe publicada o faz Rebello nascido a 7 de Abril de 1623 e na que ainda está inédita diz o mesmo biographo que o poeta nascêra a 20 de Dezembro de 1633. Entretanto, nas duas cópias vê-se que Gregorio de Mattos falleceu em 1696, na edade de 73 annos, o que não se conforma com a data de 1633, pois neste caso teria o poeta morrido com 63 annos, como já por sua vez ponderou Innocencio da Silva.
Agora cumpre dizer que a data da morte de Gregorio de Mattos ainda carece de averiguação. Rebello diz na Vida impressa que o poeta morreu no «dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro.» E na cópia que se acha inédita diz o biographo, quando tracta do mesmo facto: «Foi este dia celebrado; e em perpetua lembrança pelas que chegaram da restauração dos Palmares, que haviam tantos annos desvelado aquella Capitania no estrago de seus moradores. Morreu finalmente no anno de 1696, com edade de 73 annos.»
A republica dos Palmares é um dos factos mais brilhantes dos annaes da humanidade; a sua historia ainda está por escrever-se, apezar de termos uma chronica coeva, embora não abranja todo o seu largo periodo. Basta dizer-se que os historiadores não declaram a epocha da sua restauração ou extinccão, porque as divergencias de datas que em muitos se notam não condizem com os documentos authenticos.
Aquella famosa reunião de negros, que viviam não em completa anarchia, mas regularmente governados, era o maior protesto que podia levantar a humanidade contra a escravidão de homens que nasceram livres e independentes. Os palmares eram uns heroes nas luctas que tiveram de sustentar e prefiriam a morte á escravidão, dando assim o mais brilhante exemplo de abnegação e heroismo. Quando o chefe Zumby foi atacado no seu mocambo, trahido por um mulato prisioneiro, que o denunciára em consequencia de temer os castigos da barbara escravidão e assim poder livrar-se d’elles, não se suicidou, despenhando-se de alto penedo, como geral e erradamente se diz; não quiz render-se, luctou e foi morto na heroica peleja. Heroica peleja, porque as forças do chefe palmar não passavam então de 6 homens, ao passo que as dos paulistas, que o atacavam, eram numerosas.