A França Antartica e o Brazil Hollandez não tinham razão de ser, a não ser a da conquista; mas a Republica dos Palmares era toda baseada nas leis naturaes da humanidade. Talvez mesmo que não haja memoria nos annaes dos povos de um aggregado de homens armados tão bellamente justificado. Não se pense porém que sou de opinião que a republica continuasse, ganhando cada dia mais heroes e mais terreno; mas tambem que não se levasse aquelle reducto do dever a ferro e a fogo como aconteceu. Havia por ventura outro meio de evitar-se tantos destroços, tantas mortes de parte a parte. Mas este recurso era durissimo para o tempo, que não permittia que em tal assumpto se fallasse; pois parece que a idéa da abolição da escravatura ainda não passava naquelle tempo sinão da imaginação ardente de Gregorio de Mattos.
Provavelmente a nova mais agradavel que chegou ao Recife no govêrno de Caetano de Mello de Castro (1693-1699) foi a morte do Zumby e o immediato e grande destroço que tiveram os negros dos Palmares.
Estes successos deram-se em fins de 1695 ou em começo de Janeiro de 1696. A data do facto não se encontra nos nossos historiadores; apenas dizem que em 1695 se deram os mais sanguinolentos encontros. De uma carta de officio de d. João de Alencastro, de 24 de Janeiro de 1696, collige-se aquellas datas. Accusa o governador geral da Bahia ao de Pernambuco (Caetano de Mello de Castro) que havia recebido a sua carta, cuja data infelizmente não declara, dando a nova da morte do Zumby, no bom successo que tiveram os paulistas, e accrescenta: «Com a sua morte e estrago dos negros considero quasi acabada a guerra dos Palmares, destinada ha tantos annos para vos lograres a felicidade de os venceres, e ser vossa essa gloria de que vos dou o parabem como amigo e como interessado, pois sempre tocou aos generaes á das victorias, que na sua jurisdicção se alcanção. As occasiões do vosso gosto, sempre acharão no meu amor os alvoroços, que devo a estimação que d’ellas faço: e as do nosso serviço, sem ceremonia, a minha obrigação.»
Mello de Castro em data de 14 de Março do mesmo anno de 1696, provavelmente epocha da partida da primeira frota para o Reino, communicou á sua Magestade as novas do successo dos Palmares, mas ignora-se a data que elle deveria dar na conta da morte do Zumby e dos mais acontecimentos, porque na Consulta do Conselho Ultramarino de Lisboa de 18 de Agosto do referido anno de 1696, em que se responde áquella carta, não se allega a respectiva data. Como esta Consulta encerra particularidades ainda desconhecidas na historia dos Palmares permitta-se-me da-la na sua integra:
«O Governador de Pernambuco Caetano de Mello de Castro, em carta de 14 de Março d’este anno dá conta a Vossa Magestade de se haver conseguido a morte do Zomby, ao qual descobrira um mulato de seu maior valimento, que os moradores do Rio de S. Francisco aprisionarão e remettendo-se-lhe topára com uma das tropas que dedicára aquelles destrictos, que acertou ser de Paulistas, em que ia por cabo o capitão André Furtado de Mendonça e temendo-se o dito mulato de ser punido por seus graves crimes offerecêra que segurando-se-lhe a vida em nome d’elle Governador se obrigava a entregar o dito Zomby e acceitando-se-lhe a offerta desempenhára a palavra guiando a tropa ao mocambo do negro que tinha já lançado fóra a pouca familia que o accompanhava, ficando somente com vinte negros, dos quaes mandára quatorze para os postos das emboscadas que esta gente usa no seu modo de guerra, e indo com os mais que lhe restarão a se occultar no sumidouro, que artificiosamente havia fabricado achando tomada a passagem, pelejára valerosamente ou desesperadamente, matando um homem, ferindo alguns, e não querendo render-se nem os companheiros fôra preciso mata-los, apanhando só um vivo, que enviando-se-lhe a cabeça do Zomby determinára se puzesse em um pau no logar mais publico d’aquella praça a satisfazer os offendidos e justamente queixosos e atemorisar os negros que supersticiosamente julgavão este immortal; pelo que se entende, que nesta empreza se acabara de todo com os Palmares, que estimaria elle Governador, que em tudo se experimentem successos felices, para que Vossa Magestade se satisfaça do zêlo com que procura desempenhar as obrigações de leal vassallo.
«Ao Conselho parece fazer presente a Vossa Magestade o que escreve o Governador de Pernambuco Caetano de Mello de Castro de se haver conseguido a morte do negro Zomby, entendendo que por este meio se poderão reduzir os mais dos Palmares por ser este a cabeça principal de todas as inquietações e movimentos da guerra que tão sensivelmente padecião os moradores d’aquellas Capitanias com tanta perda de suas fazendas e morte de muitos, e que Vossa Magestade deve mandar agradecer ao dito Governador o bem com que neste particular, e nos mais do serviço de Vossa Magestade se ha havido, e que o perdão que se deu a este mulato se deve approvar na consideração da importancia d’este negocio e de se poder pôr termo as hostilidades tão repetidas, quantas os vassallos de Vossa Magestade sentirão na extorsão e violencia d’este negro Zomby. Lisboa 18 de Agosto de 1696.—Conde.—Sepulveda.—Serrão.—Como parece. Lisboa 22 de Agosto de 1696.—Rey.»
As duas cartas de Mello de Castro para o governador geral da Bahia e para a côrte, dando conta dos acontecimentos, não apparecem e só ellas poderão esclarecer ao certo a data da morte do Zumby e de outros factos que devem relatar por menor, como se collige da accusada carta de officio de d. João de Alencastro quando escreve: «no bom successo que tiverão os Paulistas, ainda que foi para elles bastantemente custoso, como por outras noticias se me diz», e da Consulta do Conselho Ultramarino, que fica reproduzida, quando dá a summa da carta do governador de Pernambuco referindo como se poude conseguir a morte do chefe dos Palmares. Estas duas cartas de Mello de Castro provavelmente devem existir, sinão nos seus proprios originaes, ao menos nos livros de registo dos dois governadores da Bahia e de Pernambuco e nos do Conselho Ultramarino de Lisboa e o apparecimento d’ellas viria de certo elucidar este facto da maxima importancia na historia dos Palmares. E d’esta elucidação poder-se-ha tirar illações para fixar-se a data da morte de Gregorio de Mattos, a darmos credito ao seu biographo Rebello, quanto ao ter ella occorrido no dia da chegada das novas da reducção dos Palmares ao Recife.
Pela carta do governador geral da Bahia vê-se que a nova da morte do Zumby foi bem recebida no Recife e provavelmente ahi festejada; porque os principaes da capitania estavam empenhados na lucta, somente com o intento de evitar que os seus escravos continuassem a engrossar as denodadas fileiras dos Palmares. Os colonos consideravam o paiz rico e tinham para si que trabalharem ao nivel dos negros era a maior ignominia e aviltamento. Só queriam ser senhores e a importancia do colono era aquilatada pelo numero de escravos que possuia, o que importava dizer que o mais barbaro era o mais considerado. Assim, a noticia da morte do Zumby e do destroço de parte dos Palmares deveria ter causado vivo contentamento aos povos do Recife e aos das mais partes da capitania. Accioli, que narra succintamente a historia dos Palmares, sem comtudo dar uma só data, diz nas suas Memorias da Bahia, 1, 139, que «o povo d’aquella cidade se entregou ao maior regozijo» e que «houve logo procissão em acção de graças.»
Rebello e fr. João de S. José Queiroz, bispo do Pará, dizem que o bispo de Pernambuco (d. fr. Francisco de Lima), assistira aos ultimos momentos de Gregorio de Mattos. Ora, o bispo de Pernambuco, nomeado em Agosto de 1695, só chegou ao Recife a 22 de Fevereiro de 1696. Já se vê d’aqui que Gregorio de Mattos não podia ter morrido na occasião em que recebeu o Recife a noticia do destroço dos Palmares e morte do Zumby. Como disse, esta nova só poderia ter chegado ao Recife até os primeiros dias de Janeiro de 1696, quando d. fr. Francisco de Lima ainda não havia aportado á sua diocese. Neste anno de 1696, si não no de 1695, não consta que houvesse em Pernambuco outro regozijo a proposito de victorias alcançadas contra os Palmares.
Alguns auctores são accordes em darem a guerra terminada em 1695 e outros em 1697, quando entretanto a lucta ainda proseguiu pelo menos até 1701, dirigida pelos paulistas.