Fernandes Gama, nas suas Memorias historicas de Pernambuco, IV, 41, dá até o dia da extincção dos Palmares, o que é um verdadeiro absurdo. Este auctor, depois de relatar a morte do Zumby e os destroços dos negros, accrescenta: «de maneira que, com mui raras excepções, do Quilombo dos Palmares só ficaram em Pernambuco os negros e as crianças. D’esta sorte aniquilaram aquelle Quilombo formidavel em 14 de Maio de 1695, depois de um sitio de mais de dous mezes e de bem prejuizo de gente.»

Para provar-se a inexacção d’esta data basta ter-se noticia da carta do Governador geral da Bahia de 24 de Janeiro de 1696, acima indicada, e da Consulta do Conselho Ultramarino de 18 de Agosto do mesmo anno, acima reproduzida; pois o governador de Pernambuco não deixaria passar quasi um anno para communicar á côrte um acontecimento, que considerava tão importante.

Milliet de Saint-Adolphe no seu Diccionario geographico, artigo Palmares, diz: «Durou este perto de setenta annos, tendo sido infructuosas varias expedições que contra elle se fizeram; porém o marquez de Pombal acabou por destrui-lo em 1697, mandando contra elle uma divisão de 8,000 homens, com a mosquetaria e artilharia que o caso pedia, &.» O auctor ainda aggrava o seu formidavel anachronismo referindo-se mais duas vezes ao mesmo marquez de Pombal, que entretanto só dois annos depois, em 1699, foi que nasceu.

Azevedo Marques nos seus Apontamentos historicos da provincia de S. Paulo, vol. I, pg. 126, tractando de Domingos Jorge Velho, diz: «Dirigiu-se depois a Pernambuco e obteve licença para atacar o quilombo dos Palmares, para onde marchou, e depois de alguns combates sem resultado, declarou-se a victoria pelo lado de Domingos Jorge a 3 de Março de 1687, sendo de todo destruido o quilombo que já contava cêrca de 30,000 negros.»

Como se vê, o chronista moderno de S. Paulo dá a republica dos Palmares exterminada a 3 de Março de 1687. Azevedo Marques foi buscar esta data nos Capitulos e condições que concede o sñr. Governador João da Cunha Souto Maior ao Coronel Domingos Jorge Velho para conquistar, destruir e extinguir totalmente os negros levantados dos Palmares com a sua gente e officiaes que o accompanhão tudo na forma referida, &., que são datados de Olinda a 3 de Março de 1687. Estas condições foram ainda ratificadas em Olinda a 3 de Setembro de 1691 e confirmadas pela côrte por Alvará de 7 de Abril de 1693!

A guerra porém não terminou com a morte do chefe dos Palmares, não se conseguindo portanto a sua restauração em 1696; continuou ainda, torno a dizer, pelo menos até 1701. Quando d. Fernando Martins Mascaranhas de Alencastro succedeu a Caetano de Mello de Castro no governo de Pernambuco ainda encontrou accesa a lucta entre os paulistas e os negros. Sou obrigado a publicar neste logar um documento e parte de mais dois—provas irrefragaveis d’essa asserção. São Consultas do Conselho Ultramarino de Lisboa de 1699, 1700 e 1701.

Na Consulta de 16 de Novembro de 1699 lê-se:

«Em o quarto sobre o negro Camanga, que a d. Fernando Martins Mascaranhas se escreva, que quando não aproveitem com elle as advertencias e avisos que lhe tem feito o Bispo para o reduzir, faça toda a diligencia para que não engrosse este negro em poder, e se faça ao depois mais custosa a sua destruição, e se sinta antes que o apresionem, ou matem aquelles effeitos que se costumam experimentar nos assaltos d’estes inimigos.»

Na mesma consulta ainda se diz:

«E no oitavo que respeita á mudança que este Bispo dá conta intenta fazer o mestre de campo Domingos Jorge Velho do arraial em que está situado, e chegar-se mais para o povoado, que esta de nenhuma maneira se lhe deve permittir pelas grandes consequencias que d’isso se podem seguir, antes que o Governador de Pernambuco lhe escreva que em nenhum caso o faça; pois o contracto que se fez com elles é terem a sua assistencia nos mesmos Palmares, para d’ali fazerem guerra aos negros levantados, sendo esta a causa principal para que foram chamados, &.»