Segue-se a Consulta de 27 de Setembro de 1700:
«Mandando Vossa Magestade ver neste Conselho a conta que deu o bispo de Pernambuco por via do secretario Roque Monteiro Paim das diligencias que fez quando andou em visita pelos Palmares para reduzir o negro Camoanga, foi Vossa Magestade servido ordenar ao Governador das mesmas capitanias dom Fernando Martins Mascaranhas em carta de 20 de Janeiro d’este anno, que quando com este negro não aproveitassem as advertencias e avisos que lhe tinha feito o bispo para o reduzir, applicasse toda a diligencia, para que não engrossasse em poder e se fizesse ao depois mais custosa a sua destruição.
«Á carta de Vossa Magestade responde o dito Governador por outra de 24 de Junho do mesmo anno, que como o dito negro faltou por varias vezes á palavra que deu ao Bispo para o reduzir de se avistar com elle em tempo certo e logar determinado; e as entradas que faziam os Paulistas no sertão se repetiam amiudadamente nunca poderia demorar em um logar, e si concluiria com elle e com os seus sequazes pelo meio das armas, que era o unico, como a experiencia nos tinha mostrado para se reduzir e sujeitar esta gente á obediencia.
«Ao Conselho parece que como este negro faltou ao que havia promettido ao Bispo, e se não ache em parte certa e se possa temer que engrosse em poder, sendo ao depois mais difficil a sua sujeição e destruição que se deve ordenar ao Governador de Pernambuco que com effeito se lhe faça a guerra, e o busquem de proposito por toda a parte, para se lhe dar o castigo que merece. Lisboa 27 de Setembro de 1700.—O Conde d’Alvor.—Serrão.—Silva.—Como parece. Lisboa 8 de Outubro de 1700.—Rey.»
E finalmente eis parte da Consulta de 14 de Janeiro de 1701:
«E no vigesimo quinto que tracta da extincção do Terço dos Paulistas que supposto se entenda não ser conveniente a sua assistencia para os Indios, que com tudo para os negros dos Palmares se reconhece ser precisissima porque sobre haver ainda muitos d’estes inimigos, cujas hostilidades se fizeram tão sensiveis para os vassallos de Vossa Magestade continentes nas suas visinhanças se elles se apartarem d’ali tornarão a sentir os mesmos povos as suas invasões; e no que respeita as terras que se lhe prometteram e a assistencia dos arraiaes nas partes mais necessarias se tem já dado toda a providencia necessaria.»
Assim, quanto á chamada restauração dos Palmares que se lê na Vida de Gregorio de Mattos, parece que Rebello quer referir-se á morte do Zumby e aos mais successos alcançados pela mesma occasião; mas á vista dos dados authenticos, a data d’estes factos é, como já disse, de fins de 1695 ou começo de Janeiro de 1696. Tambem podiam ter se dado em 1695 e chegado a noticia ao Recife nos primeiros dias de 1696. Si pois Gregorio de Mattos morreu no dia em que chegou ao Recife a nova da victoria alcançada contra os Palmares, não podia de certo o bispo d. fr. Francisco de Lima ter assistido aos ultimos momentos do poeta. Rebello e o bispo do Pará não são testimunhos coevos; ambos escreveram muitos annos depois da morte de Mattos, o primeiro depois de 1740 e o segundo de 1759 a 1764. D. fr. João de S. José Queiroz não dá a data da morte de Gregorio de Mattos, nem declara o nome do bispo que chegou a ir pessoalmente dispor o poeta para que não morresse como impio; mas desde Junho de 1694 a diocese de Pernambuco achava-se vaga, e provavelmente o bispo do Pará quer referir-se a d. fr. Francisco de Lima, que governou de 22 de Fevereiro de 1696 a 23 de Abril de 1704.
III
Como se vê no final da Vida de Gregorio de Mattos, Rebello fez tirar o seu retrato por um antigo pintor, que fôra familiar do poeta; mas este retrato infelizmente não apparece hoje, deixando assim um vacuo immenso na galeria historica dos homens notaveis do paiz.