E á saida do circo, ao astro romanesco,
Á noite iria, então,
Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
Do livido truão!

Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
Um hymno d'enfadar,
Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
Sem um que a possa amar!

E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
Do que ella amava mais:
—A vida illuminada á luz dos restaurantes
N'um sonho de cristaes!

XIII

AS VICTIMAS

Eu vejo muita vez e raro já me assombro
—Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!—
Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
No transito penozo as longas procissões,

De victimas da sorte e victimas do mundo!
Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,

Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
São magros peitos nús, são faces cadavericas,
São as tristes, as vís desolações carnaes.

São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
Nas lamas encharcando os regelados pés:
Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
—Flôres que enfeitarão a noite das galés!

São aquellas gentis e pobres costureiras
De peito comprimido; anemica expressão;
Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
Ganhando em todo o dia apenas um tostão,