Curvadas a cozer o languido velludo,
O irritante setim dos grandes enxovaes,
Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
Depois indo morrer nos tristes hospitaes!
São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
E os reis fazendo rir das suas maldições!
São da lugubre noite umas flôres sem nome
Batidas muito já dos grandes vendavaes,
Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
Derramam pelo seio aromas triviaes
E fingem depois ser apparições divinas,
Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
Aos apetites vís da multidão brutal!
São mineiros sem luz; são velhos britadores,
Que o contacto da pedra um dia endureceu,
Queimados pelo sol, gelados nos horrores
Do tumulo cruel que em vida os recebeu!
São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
Que sentiram na terra as vastas corrupções
E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
Tentaram espedaçar os ultimos grilhões
E que passam tambem um tanto contristados,
Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
Os deixamos seguir ainda apedrejados
Não raro desprezando a sua augusta voz!
E a grande multidão de martyres sublimes,
De tristes semi-nús, constante a caminhar,
Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!
A fila tenebroza, a procissão de victimas,
Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
E do estygma cruel das penas mais legitimas
Em muita fronte bella um traço podeis ver!
Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
Podia dividir a tunica cezarea
Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!