XV
Boas noites coveiro: a tua enxada
Não cessa ha tanto tempo de cavar?!
Cavalleiro da morte, ó fronte desolada
Não sentes a mão tremula e cançada
De tanto trabalhar!
Tu esperas hoje as legiões sombrias
De mortos, que eu supponho ao longe ver?
Os felizes caídos nas orgias
E os tristes que além todos os dias
O gelo vem colher?!
Que immensa valla aberta! são medonhos
Os risos d'essa boca infame, alvar!…
Descansa dos teus dias enfadonhos!
—Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
Não posso descançar!
XVI
FLOR DA MODA
Alice, o turbilhão das salas elegantes,
Começa a entristecer; ninguem sabe por quê!
Aquella flôr doente amava muito d'antes
As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
Agora é desolada e penso que descrê.
Que tedio se abrigou na vaga transparencia
D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
—Moderna creação da santa decadencia,
Que alia gentilmente ás pompas da regencia
Os indecisos tons d'um ar sentimental?!
Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio
Das vagas oppressões da tua insomnia má,
E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio,
Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
Na conta d'uma cousa um tanto usada já!
No idylio pastoril das noites venturosas
Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar
N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!