E quando a augusta voz do mar ou das florestas
Abala o coração dos justos e dos bons,
Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,

No amor das castelãs scismar entre as giestas
Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
Abraza a geração de lyrios ideaes
Que passam, como tu, galantes e doentes,
D'um amor desordenado ás cousas dissolventes,
Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!…

E tem de os consumir a grande nostalgia
D'um mundo mais á moda e menos trivial,
Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
E se possa esquecer a vil monotonia
De tudo que nos cerca:—Alice eis o teu mal mal!

No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias
A febre, mãe cruel d'estranhas sensações,
Na fria placidez do gaz e das bigonias
Construe na tua mente as grandes babylonias
D'um mundo extraordinario e monstro de visões!

Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa:
És boa e fazes gala em que te julguem má.
E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa
E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
—Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!

E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
Que tu amortalhada em rendas e escumilha
Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!

XII

Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
Que a nova geração nos labios traz suspenso
Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!

Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!