Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
Mordeis o pedestal da velha Magestade!

E as grandes combustões que sempre vos consomem
Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!

XVIII

A CHRISTO

Precisamos Jesus, se não te sentes velho,
Que cinjas novamente o resplendor de luz
E venhas explicar a letra do evangelho
A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

Ainda não cessou, de todo, essa contenda
Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:
E aquelles que são bons e adoram tua lenda
Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

Apenas resoasse o teu verbo indignado,
O latego febril das grandes corrupções,
Iria atraz de ti um mundo revoltado
Que sente na consciencia a luz das redempções.

E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea
Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,
Havias d'encontrar essa alma de bohemia
Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido
Não póde supportar os gelos da manhã.
Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido
E a vida aqui é cara e longo o macadam!

Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
Se não fosses, em fim, comido pelos corvos
Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!