E quando vos apraz, nas azas transparentes,
Mais alto ides por certo,
Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
Que vemos voar tão perto!

No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
Que o seculo, afinal,
Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
Que fazem muito mal!

E quando vós passaes, nas horas do mysterio
D'estrellas revestidas,
Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
Das rosas corrompidas!

Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
Archanjos ideaes,
Deixando-nos colher a flôr do realismo
Nas coisas triviaes!

XXVII

Melancolias do outono! Eu quando além descubro,
Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
Compungem-me as crueis desolações d'outubro!

Das orlas do poente, afogueado, rubro,
Ó moribundo sol! com que poesia douras,
As formas triviaes das cabecitas louras,
Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!…

Solta o canto final a orchestra da folhagem:
São horas de partir; apresta-se a viagem,
E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!

Mas as vistas lançando ás regiões saudosas,
Nos esforços crueis das tosses dolorosas,
Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!

XXVIII