Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
A velha imperatriz da inercia e da cubiça,
Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa!
Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!
Ella estreita no seio a velha populaça,
Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!
E póde receber o beijo e a bofetada
Sem que sinta o rubor da colera sagrada
Acender-lhe na face as duas rosas bellas!
Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto,
Ás vezes, acompanha o provocante gesto
Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas!
XXX
Á NOITE
Eu gosto de velar a percorrer os mundos
Ó noite dos bons canticos,
Aos lividos clarões dos astros vagabundos
Nos extasis romanticos,
Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa
Dos falsos ouropeis,
Com seus famintos cães, a sua lua baça
E os seus negros bordeis,
Resona torpemente aos beijos deleterios
D'alguns velhos amantes;
—Os longos hospitaes e os tristes cemiterios
Que a afagam delirantes!
Comtudo eu tambem sei que existe muito instante
De gelos, em que tu,
Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
No pobre seio nú!