Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,
Nas choças, nos esgotos,
Cuspir cynicamente as frias tempestades
No seio vil dos rotos,
Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
Um dia sem ter pão,
Nem d'essa esfarrapada e velha populaça
Que rosna como um cão!…
Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
O manto dos horrores,
E o gladio vingador das coleras celestes
Ó noite dos amores,
Retomas o tom puro e santo do mysterio
Da pallida mulher
Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio
E ao campo um malmequer!
Em horas de tormenta és a mulher colerica!
Até cospes na cruz!
E formam-te espiraes na coma athmospherica
As viboras de luz!
Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
Em doce e plena paz,
É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
Depois das horas más,
E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;
Os casos mais galantes;
As languidas canções; os bellos desalinhos
E os gestos provocantes!…
Ó filha do silencio! Aos puros alabastros
Dos hombros ideaes,
Se Deus arremessasse a quantidade d'astros
Que em ti brilham a mais,
As pallidas visões que passam doloridas,
E um tanto contristadas,
Haviam de surgir d'estrellas revestidas
Em trajos d'alvoradas!
Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis
De languidas canções,
O pobre sonhador de coisas impossiveis
Que adora as solidões!