NOS CAMPOS

A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
O mundo era um altar; as serras grandes aras;
E os canticos da paz corriam nas searas
Em honra do bom Deus.

No solemne silencio immersa ia minha alma
Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
Que sente germinar os frescos vegetaes.
De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
Detive-me um momento; olhei:—era o viatico!
De noite a horas taes,

Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
Trazido pela mão d'um padre sem batina
Roubado ás sensações d'um longo resonar?
Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
Movia-se a rezar.

Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
Um pobre cavador, mordido pela febre,
Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
Tentavam-se esconder na velha saia rota
Da mãe louca de dôr!

A voz do sacerdote a custo resoava.
A palavra d'amor que ali se precisava,
Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
Falava o Deus severo e forte dos castigos,
Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
Um dia ajoelhou?

Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
Latiam tristemente em volta do cazal:
E o levita lançava áquella noite escura
A benção derradeira, erguendo a mão segura,
N'um gesto machinal!

Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
Sahia sem deixar da sãa verdade humana
O balsamo suave, o dom consolador!
Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
Sósinha a mesma dôr!

Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
Havia aquelle albergue apenas solitario,
E frio o pobre lar!

E o rude agonisante, o triste moribundo
Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
Talvez ao presentir o fim da insana lida
Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
E contra nós tambem!