E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
Se batem contra os reis!

Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
Que sagram toda a vida aos ideaes severos
Da justiça e do bem; caíndo com valor,
Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
Varados pela dor!

Ó pobres multidões! as grandes noites frias
Não cessam de morder, famintas e sombrias,
N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
As petalas de luz!

Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
E vejo dia a dia a despontar mais puro
O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
Recordo-me que sois a productiva leiva
Aonde já circula uma opulenta seiva,
De grandes creações!

XXXV

O ULTIMO D. JUAN

D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
Podiam-vos contar as violações brutaes!
A gula com que morde as mais sagradas cousas
D'horror faz recuar os trémulos chacaes.

Não descanta á viola, á noite, os seus enleios:
Elle vive na sombra e eu sei também que vós,
Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios,
Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.

Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
As monjas virginaes, uns pudicos dragões;
Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
E ás noites de luar os vossos corações;

Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
Nas grandes solidões irá dormir comvosco,
Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!