E o que elle adora muito ó virgens romanescas
Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal:
Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
Deixando o resto a vós damnados do ideal!

Não vive como nós de candidas mentiras:
Não communga do amor esse illuzorio pão:
Devora com fervor as pallidas Elviras
E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
Maior do que o dos reis; adora as solidões:
Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro;
Mas vive como os reis das grandes corrupções!

Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
Do velho D. Juan, feroz conquistador,
A quem da vossa bocca um halito divino,
Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

Mas que um dia virá, na candida epiderme,
Na sagrada nudez dos collos virginaes,
Em hymnos de triumpho—o grande Cezar-Verme!—
Colher o que ficou de tantos ideaes!

XXXVI

Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
A aérea multidão de fadas quebradiças,
Gentis apparições dos bailes e das missas,
Desliza no fulgor das pompas seductoras.

No arfar da cazimira ha frases tentadoras
E maciezas taes nas languidas pelliças,
Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças,
Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!

E muitos hão de ter uns extasis divinos
Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos,
A vaga introducção d'uma balada aerea;

Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
Se escuta, a martellar na sua barricada,
Sinistra rota e fria, a livida Miseria.