E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira
No fumo dos festins revoa em turbilhão,
Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
Do palacio á cabana o vosso doce olhar,
Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
D'um raio creador o berço a illuminar!

No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo,
Da moda traja agora os novos ouropeis,
E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias,
Se aquella santa flôr das grandes commoções,
Apenas tem logar nas vossas elegancias.
Como um enfeite de mimo amado nos salões;

Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
Sonhando a sagração dos heroismos novos,
Resplendente de luz; vistosa de metaes:

Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem
Por entre a saudação das alas cortezãs,
Levando as seducções da vossa doce imagem
Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
Palpita ingenuo e bom na paz da solidão,
E o vosso amor levae á opera e ao passeio
A fim de que elle arranque um bravo á multidão!

E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
Maior do que nenhum podemos encontrar,
Intenta seduzir pela medalha d'ouro
Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!

XXXIX

Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas
Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!…
Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas;
Dá saudades á lua.