Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
Dos palacios reaes, nas grandes recepções,
E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!

Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
Afim d'honrar melhor a primitiva fé,
Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
Polvilham-se melhor os homens da libré!

E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
Fataes scintillações de vinhos e rubins,
Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
Lampejos de cristaes, insidias de setins!

Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
Façam peso de mais na barca do Senhor,
Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
Mal podem segurar o leme salvador!

Por isso quando avisto o espaço que negreja
E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã
Do fendido baixel da tua velha Egreja
Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!

XLI

O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
Descançam no torpor d'um mundo corrompido.

No puro céo christão, de estrellas revestido,
No entanto ha muito já que chora e que trabalha,
Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado
E senta-te, mulher, no throno abandonado
Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

Depois inda maior, mais pura e mais serena,
No sangue de Jesus molhando a tua penna
Explica a nova lei no fim dos evangelhos!