Mas rio ainda mais dos histriões burguezes
Cobertos d'ouropeis
Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
A serio os seus papeis.

São elles, almas vãs, consciencias rebocadas,
Que, em fim, merecem mais
O comentario atroz das rijas gargalhadas
Que ás vezes disparaes!

Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
Nas comicas funcções,
Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
De riso as multidões!

E eu que amo as expansões dos grandes risos francos
E os gestos d'entremez,
Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos,
Eu gosto de vossês!

XLIII

A HYDRA

Ha muito que desceu das orientaes montanhas
A hydra singular que espalha nas ardencias
D'uma luta febril scintillações estranhas!

Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
E corre descrevendo em giros caprichosos
Na leiva popular um indefinido traço.

Prefere aos antros vis os focos luminosos
E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.