Passou pelo paiz da candida Utopia:
Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
E sem temer sequer a lugubre vizeira
Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
Trataram d'acender a livida fogueira.

E ao galope lançando os esquadrões cerrados
Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
A cumplice fatal dos lividos Pecados!

Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
Derrama cada vez mais bellos e fecundos
Os intensos clarões da lucida pupilla,

E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
Os despotas crueis, acolhem com desdem,
A hydra immensa—a Idéa—a farejar nos mundos
Ainda a garra adunca afia contra alguem!

XLIV

OS NOVOS LEVIATHÃS

Dos antigos Titães, o mar,—fera indomavel,
Agora verga o dorso ao peso colossal
Dos novos leviathãs que em bando formidavel,
Nas grandes explosões da colera insondavel,
Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!

Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
Em halitos de fogo, á nossa voz fieis,
E como o combatente erguendo a lança a prumo,
Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo
Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!