Que sopro creador, que força omnipotente
Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
Ó novos leviathãs provindes tão somente
Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!
Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
E as sereias gentis não fazem como d'antes,
Ao som da sua voz, perder os navegantes;
O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!
Ó alma antiga dorme inerte no regaço
Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador
Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço
Outra alma inda mais larga,—o novo Deus-Vapor!
XLV
Sua alteza real o pequenino infante
Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira:
Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira
Que sua alteza vinha á diversão galante!
Ó vergontea gentil! quando um tropel distante
De subito acordar os echos da clareira
E uma preza cansada, em rolos de poeira,
Varada, a vossos pés, caír agonisante,
Acercai-vos então da pobre fera exangue
Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue
Sem que um grito de dó nos corações acorde!
No entanto não fiqueis na doce gloria absorto:
O velho javali parece ás vezes morto
Mas surge da agonia e os seus algozes morde!