Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
O triste sonhador que o teu olhar cantou,
E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
Fugir como o luar d'um astro que expirou!
Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
E tempo é já, talvez, da Morte desposar
O sonho que em minha alma entrou como um bandido
E só da vida sae depois de me roubar!
Eu devera amarral-o á braga do forçado,
Como a Justiça faz aos despreziveis réos,
E lançal-o depois á valla do passado
Aonde o fulminasse a colera dos céos.
Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos
Ao som d'uma canção das quadras juvenis,
E amortalhar depois—em doces pensamentos—
No manto da saudade, os seus restos gentis.
E quando elle seguir ás regiões saudosas,
Aonde todos nós iremos repousar,
Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
Que dentro de minha alma houver por desfolhar!
Ninguem profanará seus restos adorados,
Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;
E quando alguma vez já hirtos, regelados,
Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;
Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,
E não te escutarei… porque também morri!
XLVII
Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
Formando os batalhões da bellica avançada!
E o trajo em desalinho, a face illuminada,
Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
Que separam de nós os braços justiceiros
Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.