Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
A fera legendaria olhada com pavor:
E uma deosa gentil, vestida de bareje,
Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
E accresce á multidão a turba dos soldados,
—Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

E o funambulo grita; impõe qual evangelho
Á turba extasiada a grande narração.
E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
Passeia nobremente os gestos de truão.

Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
E um archanjo que sua e pede de beber!

A tua imagem tens ó povo legendario
No comico festim que mal podes pagar,
Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
Que a vara do histrião nas praças faz dansar.

IV

GRAÇA POSTHUMA

Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
N'uma noite serena, ao teu berço final,
Um producto mimoso;—um grande lyrio branco
Da alvura do teu collo eburneo e divinal!

Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!

E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
—Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!—