E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
A fragrancia que exhala a candidez do linho
Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,

—Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
Depois do verme vil teu seio polluir,
Mais pura no frescor de tal metamorphose
Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!

Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
Da vida, são crueis mas passam como um som!
Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,

Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
Depois de te sagrar as ultimas canções!

V

HISTORIA SIMPLES

Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
Cavava todo o dia, andou sempre contente
E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.

Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.

A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
E tinha ainda mais não sei quantas creanças
Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
Era bebado e mau, batia na mulher;
E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
Cantava canções vis de a gente ensurdecer.