Um dia uma senhora honesta da cidade,
Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
E fez-lhe um certo gesto:—o moço não quiz ir.
Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,—irei!
Despediu-se dos seus: devia obediencia
Á senhora gentil que se chamava… a Lei!
Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
Choravam á partida:—um quadro doloroso!
A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!
Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
Primeiro foi medido e todos a final,
Depois de bem revisto, á uma, concordaram
Que ao serviço do rei convinha este animal!
Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
—A ordem—jubilava em doces pulsações!
Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
Gastando pouco mais:—uns cobres e uns feijões!…
Agora quando passa o batalhão luzente
Na rua, podeis ver o pobre cavador
Com modos imbecis, marchar pesadamente
—Heroe por conta alheia—ao rufo do tambor!
Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
Que trazem no chicote a salvação do rei.
E na pobre cabana ainda se conserva
O mesmo quadro triste:—a lacrimosa mãe;
Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!—
Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
Emquanto na campina alouram os trigaes,
Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
Receiam que Deus faça andar o mundo mais.
Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
Trazendo novamente a luz ao pobre lar.