A fixidez do seu olhar parecia penetrar no mais intimo do meu pensamento.
Temeria ella abrir a porta da gaiola ao passarinho?
Munindo-se, porém, do seu isolador, e partindo uma vara da arvore electrica, pozemo-nos a caminho, internando-nos por uma passagem subterranea e escura, guiados unicamente pela luz do nosso facho.
Chegados a certo ponto, resvalei: ella, que me segurava pela mão, com este movimento, cambaleou, e deixou escapar o ramo que cahiu junto a mim, mas felizmente sem me tocar. Senti porém um entorpecimento em todo o corpo, o cérebro enervado, a vista perturbada e sem poder distinguir os objectos.
Apenas percebi que estava sendo conduzido por ella, e só recuperei o pleno uzo da razão no seio das aguas.
Este incidente não permittiu orientar-me sobre a mysteriosa sahida para o mar.
Olhei para todos os lados; o facho só illuminava n'um certo raio; a terra tinha desapparecido.{43}
Estavamos n'uma zona de mar quasi deserta de vida: raros peixes appareciam, e esses, pela sua marcha rapida e em linha recta, procuravam outras regiões, preferindo aquelle caminho menos frequentado, como querendo evitar seus adversarios.
Desciamos lentamente quando principiei a distinguir, abaixo de mim, uma claridade comparavel á aurora.
Á proporção que afundavamos, augmentava, até que a prespectiva assemelhava-se á que deve disfructar o areonauta, passando em balão e d'alto sobre uma vasta cidade illuminada, com a differença que, em vez da sua luz brilhante, e do movimento de uma população, via uma phosphorecencia n'uma extenção enorme e um formigueiro indescriptivel; um cruzar e recrusar de seres de todas as dimensões, feitios e côres, que naturalista algum seria capaz de classificar.