—Tudo, menos isso, Luiz!
Conheço demais a seriedade do teu caracter: mas não haverá no teu espirito uma illusão,{13} filha dos teus insaciaveis desejos de penetrar os mysterios vedados á nossa investigação?
—Não, Carlos! Estes quadros são as memorias vivas do que me foi dado ver!
—O que homem! O centro da terra, e o fundo dos mares?
Agora começo a duvidar da tua sanidade intellectual! Como queres tu que eu tenha por realidade, este quadro, por exemplo, em que vejo a tua figura, pois evidentemente o é, com o trajo de banho que usavas, olhando com pasmo um espaço enorme illuminado, segundo julgo, a luz electrica; arcarias cristallinas a perder de vista, um lago sem fim que parece de prata liquida, um arvoredo exótico, esplendido, e junto de ti, encarando-te como em extasis, uma rapariga gentilissima, linda como pode ser um anjo!
Que matizado tapete é este que se desenrola em toda a extensão do quadro? Nunca a Persia produziu uma maravilha igual. E esta claridade, suave como a da lua, que penetra, sem produzir sombras, todos os pontos mais reconditos d'este phantastico recinto!
Pois tudo isto é real!
—É! respondeu-me elle; imperativamente.
Havia um tom d'authoridade n'aquella affirmativa que me fez emmudecer.
—Senta-te; me disse elle, e escuta-me. Por mais extraordinarios que te pareção os acontecimentos{14} que vou narrar, peço-te que me tenhas na conta de verdadeiro. O mundo dava-me por doudo varrido, bem sei; e é por isso que este segredo morreria comigo se o acaso nos não aproximasse mais uma vez na vida.