--Então, brancos, que vos disse eu? Ganiu Gagula em triumpho, brandindo a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi está ainda, desde gerações! Que vos disse eu?

John ergueu o saco. Era pesado e tinia.

--Santo Deus! Está cheio de brilhantes! Balbuciou elle quasi com medo.

E com effeito, meus amigos! A idéa d’um saco de couro repleto de diamantes--é de causar medo!

--Para diante, para diante! Exclamou o barão, com subita impaciencia. Dá cá tu a lampada, bruxa!

Arrancou a luz das mãos de Gagula. E de tropel com elle, sem sequer pensar mais no saco que John atirára outra vez para o chão, transpozemos a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomão.

Durante um momento olhámos vagamente em redor, n’um silencio apavorado. Á luz debil e mortiça da lampada só percebemos, ao principio, que o quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados vimos distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas até á abobada, uma porção immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez uns quinhentos ou seiscentos dentes. Só aquelle marfim nos poderia tornar a todos ricos para sempre. Era d’esse espantoso deposito que Salomão fizera talvez o «grande throno de marfim», de que fallam os livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com veneração, como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas.

--Alli estão os diamantes, gritou John. Trazei a luz!

Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o barão baixára mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito compridas, pintadas de escarlate. A tampa d’uma, tão antiga que mesmo n’aquelle ar sêcco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestigios d’arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei a mão através, e tirei-a cheia, não de diamantes, mas de moedas de ouro, como nós nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e palmeiras e torres em relevo no cunho.

--Justos céos! Murmurei suffocado. Aqui devem estar milhões! Isto nem se acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos mineiros... Estaremos nós a sonhar?