--Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto. Onde estão por fim os diamantes? Só se o portuguez os metteu todos no saco!
Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente:
--Além, além, onde é mais escuro! Lá estão os tres cofres de pedra, dois sellados, um aberto!
A sua aguda voz tomára um som cavo e sinistro. Mas quê! Onde ia agora, diante de tão inverosimeis riquezas, o medo das prophecias mortaes? Era além, no recanto escuro? Para lá corremos, sondando com a lampada.
--Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitação. Aqui. Oh meu Deus! São tres arcas de pedra!
E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando os tres lados d’uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada á muralha. Baixamos a lampada para dentro. Não pudémos distinguir nada ao principio, deslumbrados por uma vaga refracção prateada que faiscava e tremia. Quando os olhos se habituaram áquelle brilho estranho, vimos que a arca immensa estava cheia até ao meio de diamantes brutos! Mergulhei as mãos n’elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de diamantes! Não havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquelle macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam sabonaceo! Era uma arca cheia de diamantes!
Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. Á frouxa luz da lampada eu via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E não havia em nós nenhuma alegria. Era um torpôr, como se a alma nos ficasse bruscamente esmagada, sob a fabulosa infinidade d’aquella riqueza.
Eu murmurei com um suspiro de creança:
--Somos os homens mais ricos d’este mundo!
John passava os dedos pelo queixo, n’uma distracção quasi melancolica: